quarta-feira, 19 de abril de 2017

Livro do Paulo Coelho explora visão da bruxa e a quebra das convenções

O livro A Bruxa de Portobello, do Paulo Coelho, é uma dessas leituras para quem se atreve a se despir dos seus preconceitos, antes de começar a ler. A trama se foca na história de Athena, uma mulher que está à procura de si mesma, de suas origens e no meio de sua jornada ela percebe que as respostas sempre estiveram dentro dela mesma e o que o melhor modo de se conectar com a sua própria verdade é por meio de alguns rituais e conhecimentos que nunca foram abandonados por alguns povos, mas continuam provocando estranhamento em outros.


O caminho de Athena acaba cruzando com o de três personagens que fazem toda diferença neste romance: Heron Ryan, jornalista; Andrea McCain, atriz de teatro e Deidre O’Neill. Cada personagem possui um grau de relação com Athena e todos estão relacionados pela escrita de Heron Ryan, o autor de uma série de entrevistas que tinha como proposta inicial escrever um livro contando a história real da bruxa de Portobello após muita pesquisa e acabou decidindo publicar a transcrição das conversas com personagens, para não mostrar a opinião dele sobre o que teria acontecido e sim a daqueles que presenciaram e tiveram a oportunidade de conhecer Athena.

Paulo Coelho usa arquétipos femininos para descrever Athena e a caracteriza como uma Bruxa, alguém que “vai em busca do prazer completo e ilimitado – justificando assim sua existência”, mas não só isso, mas também como a Virgem (independente que enfrenta sozinha os desafios), a Mártir (se descobre na entrega e sofrimento) e a Santa (ama sem limites). No romance, a figura da bruxa é utilizada sob várias óticas que se intercruzam, seja a tradicional de quem vive os ensinamentos da Mãe Deusa, daquela que se conecta com a natureza e busca a sabedoria, de quem estuda e pratica a bruxaria e os caminhos da magia, até do olhar cheio de estranhezas vindo do outro, que ora admira, ora julga aquele que é diferente e se recusa a viver uma vida normal.

“Ninguém acende uma lâmpada para escondê-la atrás da porta: o objetivo da luz é trazer mais luz à sua volta, abrir os olhos, mostrar as maravilhas ao redor. Ninguém oferece em sacrifício a coisa mais importante que possui: o amor. Ninguém entrega seus sonhos nas mãos daqueles que podem destruí-lo. Exceto Athena” – Paulo Coelho, A Bruxa de Portobello

O que muitos veem como uma linguagem simples, na verdade faz parte da intencionalidade da linguagem do escritor. Paulo Coelho brinca com as fronteiras entre a literatura ocidental e a literatura oriental, entre o sagrado e o ocultismo, entre o consciente e o inconsciente, entre a mitologia e a magia. E é essa mistura que torna sua narrativa mais rica, especialmente para quem tem uma bagagem eclética de leituras. Há uma intertextualidade maravilhosa nas produções literárias dele. Longe de trazer respostas prontas, assim como toda literatura, o escritor acaba trazendo mais questões do que respostas.

Assim como o romance fala sobre a quebra das convenções e dos dogmas, o seu romance é um reflexo do que é explorado pelos personagens. Athena é o tipo de personagem que para a sociedade poderia ser uma excêntrica, histérica, porém os frutos de sua inquietação não são somente suas aflições internas. Ao acordar para as novas verdades, ela acaba se transformando em um instrumento de iluminação. Em um mundo mergulhado na escuridão e no caos, nem todos estão preparados para seguirem seus próprios instintos e se libertarem de seus condicionamentos, gerando revolta entre os mais conservadores.

Vocês não estão aqui para ter respostas seguras; minha missão é provocá-los. No passado, governantes e governados acudiam a oráculos, para que adivinhassem o futuro. O futuro, porém, é caprichoso, porque se guia pelas decisões tomadas aqui, no presente […] O destino será implacável com os que querem viver em um universo que já terminou. O novo mundo é da Mãe, que veio junto com o Amor para separar os céus das águas. Quem acredita que fracassou, fracassará sempre. Quem decidiu que não pode agir diferente, será destruído pela rotina. Quem decidiu impedir as mudanças, irá transformar-se em pó. Malditos sejam os que não dançam, e impedem os outros de dançar” – Paulo Coelho, A Bruxa de Portobello

A figura de Athena nos lembra a importância de buscar a liberdade, mas também nos alerta quais são os riscos de quebrar as correntes em uma existência repleta de ódios e preconceitos. Das transes de Athena, muitos buscam respostas para suas próprias perguntas, deixando muitas pessoas obcecadas com a ideia de viver com intensidade como a mulher e incomodando membros da igreja. Um dos comentários mais controversos do livro vem de um bispo que julgou Athena como alguém que manipulava as pessoas em troca de lucro financeiro e poder pessoal (charlatanismo) – atitudes que inúmeras religiões, pseudo-gurus e padres têm feito há séculos. Ou seja, ao mesmo tempo em que a narrativa abre as portas para um universo mágico e libertação, ela aperta as feridas da sociedade, mostrando que o diferente sempre incomoda e que sempre vai existir alguém tentando impor sua verdade sobre a do outro. Mesmo o paganismo sendo tão antigo quanto o cristianismo, há sempre um lado que teme perder o seu controle e disposto a jogar o outro na fogueira.

Há uma linha que conecta os livros do escritor Paulo Coelho, aquela que tenta demonstrar que há inúmeras possibilidades de viver em um mundo de enquadramentos e sonhos natimortos. O autor propõe um olhar inconvencional sobre a natureza humana e discute o livre-arbítrio. Em uma jornada com tantas direções a seguir e a escolher, a maioria das pessoas sempre aposta no destino traçado pelos outros e teme dar os seus próprios passos. O que acontece quando as pessoas decidem dançar ao contrário? Mais cedo ou mais tarde, muitos acabam percebendo que desperdiçaram suas vidas vivendo uma vida que não eram suas. A Bruxa de Portobello é um livro sobre liberdade de escolha e sobre como mesmo aqueles que desejam dar o poder aos outros podem ser mal-interpretados como se quisessem obter alguma vantagem pessoal, algo contrário ao que sempre acreditou, levando muitos a optarem por uma vida de solidão.

“Tentei sussurrar algumas coisas, porque eu já havia passado pelas mesmas etapas, e sei o quanto era difícil – assim tinha dito meu protetor, e assim que tinha experimentado em minha própria carne. Mas o fato de ser difícil não tornava esta experiência menos interessante […] Viver como ser humano e como divindade. Passar da tensão ao relaxamento. Do relaxamento, ao transe. Do transe, ao contato mais intenso com as pessoas. Deste contato, de novo à tensão, e assim por diante, como a serpente que come a própria cauda” – Paulo Coelho, A Bruxa de Portobello

Paulo Coelho proporciona uma reflexão sobre tradições, convenções, dons e destinos. Autor e narrador não são uma coisa só. Assim como nem todo texto é autobiográfico, embora possa ser inspirado. Nada se cria do zero. Para quem conhece a biografia do escritor, dá para notar a influência que os seus romances têm de sua própria vida, como o período em que foi preso e torturado no período da ditadura militar e sua luta pela liberdade de expressão ou quando foi internado em manicômio e quase desistiu de escrever, embora é preciso lembrar que a figura do narrador não é necessariamente um espelho do escritor e mesmo reflexos podem ser distorcidos.

Entre o gosto e o desgosto por Paulo Coelho, pelo menos ouse ler qualquer livro que seja sem carregar os olhares de julgamento dos outros. Assim como Athena aprende e ensina, às vezes, é preciso saber dançar fora do ritmo e a simplesmente amar incondicionalmente, sem medo do obscurantismo dos outros. Afinal, a história da humanidade é construída em cima de verdades prontas, mas sempre vai ter alguém disposto a questionar e a seguir seu destino e a acreditar em seus sonhos, mesmo que o mundo tente despedaçá-los.



Sobre o autor – Considerado um dos mais influentes escritores de nosso tempo, Paulo Coelho tem seus livros publicados em 150 países e traduzidos em 62 línguas. Nascido no Rio de Janeiro, em agosto de 1947, Paulo descobriu cedo sua verdadeira vocação de escritor. Trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista. Suas parcerias musicais com Raul Seixas renderam alguns dos maiores clássicos da história do rock no Brasil.

Em 1987, um encontro muito especial o levou a percorrer o Caminho de Santiago. Um ano depois da peregrinação Paulo escreveu O Diário de um Mago. Não demorou muito, lança O Alquimista, livro com o qual ele inicia sua trajetória internacional. O sucesso é tão retumbante que, segundo o Jornal de Letras, de Portugal, O Alquimista é o livro escrito em língua portuguesa mais vendido em toda a história.

Ele continuou a escrever outros tantos livros que tocam o coração das pessoas do mundo inteiro. Colabora com alguns dos mais importantes meios de comunicação de todo mundo e desde 2002 ocupa a cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem com temática de bruxaria O Círculo, com mais de 50 mil leituras, disponível para leitura gratuita no Wattpad, a maior plataforma de livros online do mundo.

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