sábado, 20 de maio de 2017

Livro explora julgamentos de crimes em família que chocaram os brasileiros

Casos de Família é aquele livro que chegou até minhas mãos no momento errado da vida, pois eu já tinha entrado em contato com uma livra-reportagem sobre o caso Richthofen. A obra escrita pela criminóloga Ilana Casoy explora dois casos criminais polêmicos envolvendo famílias: caso Richthofen e caso Nardoni. Publicada pela editora DarkSide Books, em 2016, o livro de não ficção reconta como foi o julgamento e os desdobramentos dos assassinatos que ganharam a mídia. A leitura serviu mais para relembrar alguns detalhes e descobrir algumas informações sobre como funcionam as coisas no júri diante de casos assim, bem como para ler sobre o caso Nardoni.


Especialista em crimes violentos e autora de livros sobre serial-killers, Ilana Casoy acompanhou os julgamentos de Suzane Richthofen, Daniel Cravinhos e Christian Cravinhos envolvidos no assassinato dos pais da garota, Manfred Von Richthofen e Marísia Von Richthofen e de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, responsáveis pela morte da menina Isabella Nardoni.

O prefácio da primeira parte do livro escrito pelo advogado criminalista Alberto Zacharias Toron joga luz sobre esse tema sombrio: assassinato entre pais e filhos. Existe muito preconceito com violência e crime no Brasil, especialmente por questões de problemas sociais, educacionais e econômicos. Alberto ressaltou que apesar de não ser incomum a associação de criminalidade com a pobreza, o caso Richthofen acabou chamando a atenção por mostrar que uma garota que tinha condições privilegiadas de vida, uma suposta família bem estruturada e uma boa educação planejou o assassinato dos próprios pais com a ajuda do namorado e do cunhado.



A criminóloga relembra os detalhes de um dos crimes que mais chocaram os brasileiros. Para quem tem curiosidade em mergulhar neste universo, a autora aborda como foi feita a análise do local do crime, distingue a diferença entre criminalística (relacionada às evidências físicas) e criminologia (relacionada à psicologia), entre outras descrições da perícia, além de recontar como foi o julgamento e o desdobramento das investigações. A frieza de Suzane Richthofen choca mais do que a colaboração dos irmãos Cravinhos, ainda que extremamente violentas. Mesmo depois de todos esses anos, a imagem da garota de classe alta permanece como um fantasma recorrente na história da humanidade: não só o do parricídio e matricídio (assassinato de pai e mãe), mas dos assassinatos familiares com interesses financeiros.

“Quando entrevisto criminosos violentos, em geral, existe uma coerência entre seu histórico e os atos que cometeram. Na vida dos indivíduos em questão, nada encontrei de objetivo que tivesse reles parentesco com atitude tão desalmada. Quis muito entrevistar os três assassinos, mas nenhum deles concordou em falar comigo, ou assim foram orientados pelos seus advogados. Talvez ainda não seja o momento. Talvez a verdade surja quando ninguém mais tiver nada a ganhar ou a perder, exceto encontrar os fatos” – Ilana Casoy, Casos de Família

O prefácio da segunda parte do livro foi escrita pelo promotor de justiça Francisco J. Taddei Cembranelli que comentou como conheceu Ilana Casoy e como seus caminhos cruzaram no júri e como com seus mais de 20 anos no tribunal, ele ficou chocado com o caso da garotinha de seis anos que foi atirada do sexto andar, cujos suspeitos eram o próprio pai e a madrasta. O caso Nardoni acabou ganhando destaque nacional na mídia, especialmente pelo assassinato de uma criança provocado por aqueles de quem eram esperado proteção e amor.

Ilana não só teve acesso aos autos com a permissão do juiz do caso, Maurício Fossen, como pôde acompanhar o julgamento do pai e da madrasta de Isabella Nardoni, ela acusada de estrangular a garota e ele, de defenestrá-la. O jogo de defesa em um caso que está perdido desde o início provoca um pouco de mal-estar durante a leitura. Todas as provas deixam claras quem são os culpados, mas como eles tiveram direito de defesa, chega a ser inquietante acompanhar o desenrolar e o nível de negação do ser humano que independente do motivo é capaz de acabar com a vida do outro, mas é incapaz de admitir os próprios erros.

“Seria esse caso diferente de outros tantos que acontecem na calada da noite ou do dia, rompendo a barreira do sagrado? Crimes de família não são tão raros quanto se pensa. Além do horror de uma pessoa ser assassinada em meio àqueles a quem se ama e em quem se confia, “a terça parte dessas tragédias familiares envolve uma mulher como autora do crime, e elas são maioria quando se trata de filhos assassinados (55%). Os números chegam a ser freudianos quando apontam a realidade de que pais matam, na maioria das vezes, as filhas, e as mães, os filhos. Assim se dá também quando observamos filhos que assassinam os próprios pais: filhas matam, na maioria das vezes, o pai, e os filhos, a mãe” – Ilana Casoy, Casos de Família

O que os dois casos têm em comum? É preciso estômago para ler Casos de Família. Algumas situações são mais angustiantes do que qualquer livro de ficção, pois estamos falando de pessoas que realmente morreram perto de familiares que supostamente deveriam ser confiáveis e não só se mostraram insensíveis diante das atrocidades que cometeram, como por algum tempo acreditaram que conseguiriam escapar impunes.

Ilana Casoy consegue transportar o leitor para dentro dos julgamentos. O ritmo exaustivo pode ser sentido a cada virada de página, prova de que alguns casos precisam ser analisados com mais cuidado, principalmente quando atraem a atenção do país inteiro e muitas emoções estão envolvidas. A escritora não quis deixar passar informações, detalhes que enriquecem a narrativa, mas podem causar um pouco de estranhamento para quem não está acostumado com a linguagem ou a rotina dos júris, assim como acontece no livro sobre o assassinato de Nicole Brown por O. J. Simpson, American Crime Story, do autor Jeffrey Toobin, também publicado pela editora DarkSide Books.

“Estou assombrada. Que história mais triste. Sinto uma aflição imensa. Crimes de família não são como crimes comuns, do cotidiano, da vida mundana, da maldade caricata. Crimes de família são feitos de sacrilégios – rompem a última barreira, tornando-se insuportáveis, intoleráveis, incompreensíveis, impensáveis” – Ilana Casoy, Casos de Família

O livro Casos de Família é leitura recomendada para quem tem curiosidade sobre os casos Richthofen e Nardoni. O desconforto só é aliviado ao final de cada parte do livro, quando os réus são condenados pelos crimes e a justiça é feita. A intenção de Ilana Casoy não foi romancear nem florear o texto, mas mostrar a frieza de que a vida muitas vezes apresenta diante de nós e expor como foram essas experiências marcantes e mesmo inconscientemente nos faz abrir os olhos para os horrores da alma humana quando movida por interesses dúbios e voláteis.


Sobre a autora – Ilana Casoy é criminóloga e pesquisadora na área de violência e criminalidade. Graduada em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e especializada em Criminologia pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Tem treinamento em Investigação e Perícia Forense em casos de homicídio pelo U.S. Police Instructor Teams. Atualmente, é membro consultivo da Comissão de Política Criminal e Penitenciária da OAB SP. Colaborou com o site do canal Investigação Discovery e dedica-se também à ficção. A especialista em crimes participou de um conselho para explicar o perfil criminal do personagem principal da série Dexter, que se tornou uma das mais cultuadas dos últimos anos. Ilana Casoy atuou como consultora da série escrita por Gloria Perez e dirigida por Mauro Mendonça Filho, Dupla Identidade, na Rede Globo. Consultora de séries e documentários para TV e cinema, dedica-se a uma pesquisa rigorosa para investigar assassinos em série, colaborando em casos reais com Polícia, Perícia, Ministério Público e Advogados de Defesa. Autora dos Arquivos Serial Killers: Louco ou Cruel? e Made in Brazil, pela DarkSide Books.

Sobre a editora DarkSide Books – Certas coisas nunca hão de morrer. A atitude punk. Os zumbis de George A. Romero. E, é claro, um bom livro. Ele é muito mais do que um objeto de papel. Já foi feito de rocha, pele de carneiro, papiro. Hoje, pode estar armazenado nas nuvens, como sempre esteve em nossa memória. A tecnologia apenas expande as possibilidades - o prazer de contar e recontar histórias continua igual. O livro é um universo em si mesmo. Um acervo de personagens inesquecíveis que guardamos na cabeceira da cama, e que à noite volta para povoar nossos sonhos. Na Darkside®, nós investimos em livros. Especialmente, livros de terror e fantasia. Fazemos questão de publicar as histórias que amamos. Algumas viraram filmes, games ou lendas urbanas, mas todas reservam experiências únicas em suas páginas. Os formatos também são múltiplos: Papel. Digital. Free-books. Edições numeradas de colecionador. Seguindo o padrão quase psicopata de qualidade, cada livro Darkside tem que ser precioso no texto, na capa e no design. Então leia, releia, baixe, divulgue, colecione. No que depender de todos nós, Darksiders, o livro vai continuar mais vivo do que nunca. Darkside® Books. Book's not dead.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

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