Seis meses sem cigarro. Há um tempo parecia algo impossível de alcançar e aqui estava ele: estaria mentindo se dissesse que ainda não tinha fissura, mas havia conseguido controlar bem mais como nunca imaginara antes. Seis meses davam uma sensação boa. Seis meses sem fumar um cigarro, mesmo passando por inúmeras situações de estresse e de ansiedade. Seis meses aprendendo a regular as emoções de forma a não descontar no vício. Os meses iam passando. Datas que antes pareciam impossíveis se tornam reais. Já imaginara quando seria quando completasse um ano sem cigarro. Ia escrevendo para comemorar e lembrar que os pequenos dias também importavam. Escrevia para lembrar que o difícil não era impossível e qualquer um poderia conseguir se livrar do cigarro, por mais difícil que parecesse no início. Escrevia para agradecer a si mesmo por ter se libertado de algo que fazia tão mal e muita gente ainda acreditava que fazia bem. Escrevia para deixar claro que não queria voltar atrás e mesmo nos dias...
A Morte do Artista é o título de um mini conto publicado aqui no blog e no Wattpad (Fragmentário). Gosto de histórias nas quais os personagens questionam suas escolhas. Acredito que faz parte da natureza humana. Ao longo da vida nos afastamos de nós mesmos. A escrita e a arte podem incomodar ao nos fazer refletir e apertar as feridas. Todos nós fazemos sacrifícios. Não dá para ter tudo.
A figura do artista ainda é tão incompreendida e mesmo quando se dedica profissionalmente ao ofício, muitas vezes, recebe olhares de estranhamento e é questionado o tempo todo sobre procurar algo mais 'normal'. Mas o trabalho do artista não é duvidado somente por aqueles que 'só querem o seu melhor'. Dentro do próprio meio artístico, existem diferentes visões sobre quem tem uma profissão e se dedica à arte e quem ganha a vida profissionalmente só como artista.
Nesse jogo de expectativas, o prazer criativo dá espaço à amargura e à destruição. Me lembro de ter lido um ensaio do Elias Canetti no livro A Consciência das Palavras, que dizia que Hitler era um artista frustrado e sua inteligência e processo criativo obstruído o levaram a se tornar um ditador. Não é algo tão difícil de perceber no dia a dia. Os romances e o mundo real estão repletos de professores de literatura, por exemplo, que abandonaram a escrita e se tornam autoritários em sala de aula. Não é à toa que muitos estudantes se desencantam dos livros: o que deveria ser algo prazeroso, em alguns casos, é tratado como mera obrigação.
E você, o que tem feito pelos seus sonhos?
Assista ao vídeo A Morte do Artista (Ben Oliveira):
Este não é o meu primeiro texto sobre o assunto, tampouco acredito que será o último. No livro Remetente N.15, escrevi um conto sobre uma personagem que era romancista e abandona sua escrita para se casar, incentivada pela própria mãe. Há quem veja a protagonista como alguém prestes a enlouquecer, há quem entenda sobre tudo o que ela precisou abrir mão ao longo da vida. Cuidar de si mesmo não é um ato de egoísmo. Entre o presente e o passado, o leitor descobre um pouco do desespero da personagem e o que a levou a chegar até aquele ponto. Amélia nos leva para o seu beco das ilusões.
Em Escrita Maldita, o protagonista do livro é um escritor de terror. Daniel Luckman é um cara de sorte. Quantos autores conseguem se dedicar exclusivamente à escrita porque o seu primeiro romance se tornou um best seller internacional? Todavia, todo mundo sabe que só um livro na lista de mais vendidos não é capaz de garantir sossego para um autor. A sorte sorri mais uma vez para ele quando um editor o convida a escrever um livro junto com Laurence Loud, um dos autores mais populares dos últimos tempos. A escrita é a salvação de Daniel, mas também é o que o condena.
*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon (entre os ebooks mais vendidos de horror na loja Kindle) e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad.