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Destaques

Seis meses sem cigarro

Seis meses sem cigarro. Há um tempo parecia algo impossível de alcançar e aqui estava ele: estaria mentindo se dissesse que ainda não tinha fissura, mas havia conseguido controlar bem mais como nunca imaginara antes. Seis meses davam uma sensação boa. Seis meses sem fumar um cigarro, mesmo passando por inúmeras situações de estresse e de ansiedade. Seis meses aprendendo a regular as emoções de forma a não descontar no vício. Os meses iam passando. Datas que antes pareciam impossíveis se tornam reais. Já imaginara quando seria quando completasse um ano sem cigarro. Ia escrevendo para comemorar e lembrar que os pequenos dias também importavam. Escrevia para lembrar que o difícil não era impossível e qualquer um poderia conseguir se livrar do cigarro, por mais difícil que parecesse no início. Escrevia para agradecer a si mesmo por ter se libertado de algo que fazia tão mal e muita gente ainda acreditava que fazia bem. Escrevia para deixar claro que não queria voltar atrás e mesmo nos dias...

Fake News de Saúde na Pandemia: Mentiras que matam

Quantas realidades paralelas existem dentro do Brasil? Não me refiro só às vivências pessoais e diferentes perspectivas de mundo, mas a um fenômeno que se consolidou nos últimos anos e se sustenta, se alimenta e se multiplica com base na desinformação.

Muitas perguntas são feitas e poucas são encontradas sobre quem cria e propaga fake news no Brasil. Entre interesses políticos, financeiros e ideológicos, até mesmo a área de saúde se tornou uma vítima, em plena pandemia. 

Com mais de um ano de pandemia e mais de 460 mil mortes por Covid-19 no Brasil, quem dirá no resto do mundo que já ultrapassa mais de 3 milhões de mortes... Embora deveriam ter mudado, alguns comportamentos problemáticos permanecem, muitas vezes, nutridos por informações duvidosas e profissionais que se pautam em pesquisas de baixa qualidade científica, ajudando a transformar questões insustentáveis em verdades absolutas  na mente de muitos. 

Para as pessoas que acreditam no bom jornalismo e na boa ciência, torna-se difícil acreditar que alguém seria capaz de cair em tantas fake news de saúde, principalmente em um momento delicado que exige mais atenção e cuidado com o tipo de conteúdo informativo consumido, as fontes consultadas, a credibilidade do veículo de comunicação e quando envolve o uso de medicamentos: quais as orientações de agências de saúde, pesquisadores, qualidade das publicações e da qualidade da metodologia da pesquisa.

Levando em conta que milhares de brasileiros exaustos pelo trabalho mal têm tempo para pesquisar a veracidade das informações e, muitas vezes, acabam repassando conteúdo nas redes sociais e em aplicativos de mensagens como o WhatsApp, sem nem mesmo ler, é mais preocupante ainda quando quem está por trás é um profissional da saúde, servindo como fonte de desinformação.

Em entrevista ao Roda Viva, o senador Randolfe Rodrigues definiu uma das estratégias atuais do governo, como a ‘Engenharia do Caos’, fazendo menção ao livro Os Engenheiros do Caos, escrito pelo cientista político italiano Giuliano da Empoli. Segundo o autor, políticos como Jair Bolsonaro e Donald Trump se utilizam de posicionamentos absurdos e contraditórios, populismo e ideias extremistas, bem como dos constantes ataques aos opositores e jornalistas – com exceção dos que os apoiam.

“Se, no passado, o jogo político consistia em divulgar uma mensagem que unificava, hoje se trata de desunir de uma maneira mais explosiva. Para conquistar uma maioria, não se deve mais convergir para o centro, mas adicionar os extremos” Giuliano da Empoli, Os Engenheiros do Caos

Diante de um cenário no qual milhares de pessoas são manipuladas por meio dos seus medos, angústias, desejos e, especialmente, do ódio, a tarefa de desmontar o ciclo de desinformação se torna praticamente impossível, pois não se trata simplesmente da ausência de fontes melhores ou de falta de conhecimento científico, muitas vezes, se trata de intencionalidade, viés e crenças.

O resultado é mais polarização e piora de situações que poderiam ser lidadas de uma forma mais harmônica. Por exemplo, como seria a pandemia se as pessoas tivessem respeitado as orientações de distanciamento social? Se as máscaras não fossem ignoradas por muitos, especialmente em aglomerações desnecessárias? Se as pessoas não tivessem ignorado a gravidade do Covid-19, influenciadas pela ideia de que se ficassem doentes, era só se tratarem – ainda que esses tratamentos não tivessem qualquer comprovação científica?

Vou além… Como seria se as orientações de autoridades da saúde confiáveis fossem escutadas em vez de escutar um Presidente que pouco entende do assunto ou outros médicos duvidosos? Como seria se a vacina tivesse sido comprada na hora certa e não fosse desacreditada constantemente? Como seria o Brasil se as pessoas parassem de atacar jornalistas, pesquisadores e profissionais de saúde que estão tentando levar informações sérias sobre a pandemia?

“Há ocasiões em que é errado ficar em silêncio e adotar a pose de profissionalmente imperturbado. Após mais de 25 anos como jornalista, eu estaria traindo minha profissão se apoiasse a degradação do valor central do jornalismo – a exatidão [...] Então, o que acontece quando as mentiras não só proliferam como também parecem ter menos importância – ou até importância alguma?” – Matthew D'Ancona, autor do livro Pós-Verdade

Em um terreno dominado por narrativas paralelas, enxergar a verdade se tornou algo improvável para milhares de brasileiros. Porém, eventualmente, com um exame de autoconsciência, aqueles que preferiram escutar as mentiras talvez lidem com traumas inimagináveis e percebam os riscos que as ferramentas digitais se tornaram não só para a democracia, como para o bem-estar e saúde pública. 

Afinal, se nos primeiros meses de pandemia, havia um desconhecimento sobre a doença e muitos brasileiros não imaginavam que chegaria ao Brasil com a mesma força, mais de um ano depois, aqueles que não aprenderam a lição e os que já sabiam da gravidade são unidos por um grito de dor coletivo: mentiras matam mais do que uma “gripezinha”!

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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