quarta-feira, 3 de julho de 2013

Escrita, disciplina e distrações

Texto: Ben Oliveira

Algumas pessoas acreditam que é preciso inspiração para escrever e têm bloqueios criativos com durações variadas, enquanto outras sabem que não existe nenhum mistério para dar vida a uma história, devendo o escritor manter uma rotina diária de produção, como acontece em qualquer outra atividade.

Ao escrever este texto, por exemplo, faço um esforço para não olhar para o computador ao meu lado e sentir vontade de navegar por páginas e mais páginas de notícias, artigos, fotos e vídeos.  A internet e outros aparelhos tecnológicos nos transportam constantemente para o universo da distração, onde basta um clique para milhares de informações chegarem até você. Da mesma forma que preciso me segurar para não atacar o teclado com minhas mãos ágeis, pois uso minha caneta e um caderno para colocar as minhas ideias no papel, no instante em que eu terminar de escrever o texto e decidir publicá-lo no blog, para que mais pessoas possam ler, eu terei que ser forte para não ceder à tentação novamente.

Mas, não é só a internet a grande vilã da concentração e disciplina nos tempos pós-modernos. A televisão, o celular, o videogame, o tocador de músicas, todos parecem estar nos convidando para uma dança e ditando o ritmo acelerado de nossas vítimas, implorando por um minuto de atenção, ou melhor, desatenção.

Fecho os olhos e conto até 10, respirando com calma, tentando encontrar harmonia. A alguns centímetros de mim está um livro de capa azul, brilhando por causa da iluminação, com as páginas marcadas. Sei que ele não pode se mexer, mas é como se ele estivesse tentando me seduzir, pedindo para que eu coloque as mãos nele e me delicie com cada uma de suas frases. A sensação de folheá-lo é tão gostosa quanto à de mergulhar num oceano de informações, onde tudo parece gritar por atenção, até mesmo seus usuários desejando ser tão famoso quanto algum artista de televisão. Todos querem falar, gritar, mostrar, compartilhar, chorar, lamentar. Poucos aprenderam a refletir, a desfrutar do silêncio e a controla a tecnologia em vez de se transformar em um dos seus servos.

Todos os dias eu prometo que escreverei mais e procrastinarei menos. Parece loucura a pressão que sentimos quando nos desligamos por minutos, horas, dias. É como se você já não estivesse mais vivendo. Bastam trinta segundos para tudo virar de cabeça para baixo. Dizem que os escritores são esquisitos, malucos, excêntricos. Tudo o que é diferente não é visto como normal pelos outros. Se alguém prefere ficar trancado no seu quarto a ter que assistir televisão, ou fazer qualquer outra atividade, isto nunca é interpretado com bons olhos. A verdade é que as pessoas estão tão acostumadas a se ocuparem e entreterem com algo, que quando tudo está em silêncio, elas sentem como se fossem enlouquecer e imaginam que todos são assim. “Não sei como você consegue”, seus pensamentos saem como gritos.

Se escrever lhe parece algo que não faria, imagine qualquer outra coisa, como o simples ato de colocar um chá no fogo e esperá-lo ficar pronto ou quem sabe preparar uma refeição mais elaborada, comendo com calma, deixando o cérebro processar cada uma das sensações prazerosas. Tudo parece um enorme sacrifício nos dias de hoje, como se tivéssemos que sorver cada gota do tempo, preocupados com as coisas da vida que moderna que podemos perder e nos esquecendo dos pequenos momentos. Basta perceber nos colégios e universidades como os alunos concluem sua educação sem terem aprendido o básico do que deveriam e nem mesmo se importam. Vivemos em tempos de economia temporal, onde quando mais rápido terminarmos algo, melhor. Deixamos de lado a qualidade, para termos mais momentos onde não precisamos pensar, desligando nossos cérebros.

Havia dias em que eu me sentia como um robô quebrado. Eu deveria estar com defeito para não conseguir achar normal algumas das preocupações que temos hoje com a produção e deixar de lado a qualidade de vida. Ou eu estava ficando doente ou fazia parte de um sistema doente. A tecnologia que deveria nos ajudar, também está nos destruindo. Antes o que dez pessoas faziam, hoje é feito só por uma. Com o passar dos anos, aumenta-se a quantidade de trabalho e consequentemente de distrações. Temos cada vez menos tempo para pensar, dormir, comer, falar e escrever. Somos como zumbis que somente se alimentam para sobreviver, não descansam, não dizem nada que faça sentido, consumindo nossos próprios cérebros. O sistema em que vivemos é tão perverso e nos faz sentir como se estivéssemos fazendo algo errado quando tiramos algum tempo para cuidar de nós mesmos. Somos escravos que sonham com a liberdade, iludidos por nossas próprias falsas ideias.

Foi aí que eu pensei. Só há uma maneira de começar a escrever e é escrevendo. Parece óbvio, mas em épocas onde precisamos de um manual para tudo, sempre tentando pular etapas, conquistando o resultado final, algumas atividades ainda exigem queimar fosfato, suar. Estou cansado de deixar para depois as coisas que poderia fazer hoje. Lembro-me de quando estava no estágio, escrevendo sobre produtos, tentando tornar atraentes acessórios frívolos. No começo eu me divertia tentando criar utilidades e necessidades para cada um daqueles produtos, até perceber que, no tempo em que fazia aquilo, eu poderia estar escrevendo meus contos, crônicas e romances, tentando prosseguir com a minha jornada e seguir os meus sonhos. De maneira alguma eu me sentia bem enchendo linguiças, escrevendo sobre coisas que eu desconhecia e nem mesmo julgava importante, cuja única variação era um simples detalhe. Tudo me pareceu tão estúpido de se fazer, só por causa do dinheiro.

Eu estava me afundando. Já não sorria mais, vivia estressado e tudo piorou quando percebi que não gostaria de passar mais nenhum tempo da minha vida divulgando produtos, e sim gostaria de apostar todas as minhas fichas na escrita de ficção. Não era porque eu tinha conseguido publicar dois contos em um livro que deveria me acomodar. Apesar de Loveless, coletânea de contos publicada pela Editora Escândalo, ter me dado propulsão, ainda havia um longo caminho pela frente.

Minha visão ficou turva. Eu sentia como se minha cabeça fosse explodir. Meus pulmões ameaçavam parar de funcionar. Eu precisava vomitar. Algo não estava me fazendo bem e estava preso dentro de mim. O pior de tudo aquilo era saber que eu tinha sido o único responsável por pisar naquela areia movediça. No tempo em que eu precisava descansar, principalmente durante o estágio, eu utilizava para escrever e ler mais, criar novas histórias, até aquilo começar a me sufocar e sobrecarregar o meu cérebro. Não poderia negar o quanto tinha sido importante conseguir dinheiro para publicar alguns dos meus contos e comprar novos livros, principalmente as obras sobre escrita, porém eu estava deixando de lado o que mais importava: fazer o que eu realmente amo. Escrever.

Não sentia falta de escrever frivolidades. Eu queria tocar pessoas de verdade e fazer elas se perguntarem se o que tinham lido poderia ser real ou não, ou se não passava dos meus devaneios colocados no papel. Foi assim que eu este robô defeituoso decidiu de uma hora para outra largar o estágio da área de marketing e produção de conteúdo para web, no qual eu precisava lidar com metas ilusórias e atividades que não paravam de aumentar, para me dedicar a aprender mais sobre o que eu gosto e poder colocá-la em prática, a escrita literária.

Ficar sem escrever, para um escritor, pode ser tão doloroso, enlouquecedor e angustiante quanto não se aventurar no território digital, para um usuário viciado em redes sociais. Ando mais quieto, reflexivo, cansado de engolir tudo o que mastigam e chegando às minhas próprias conclusões sobre a vida. Decidi observar mais, ouvir mais, pensar mais, e o principal, escrever mais.

Ainda não estou escrevendo tanto quanto gostaria, mas ao menos estou aprendendo a usar o meu tempo livre com mais sabedoria. De nada me adianta saber estrutura uma história se ela não traz emoções e não fazem as pessoas refletirem sobre suas próprias vidas. Criar um mundo de distração é, sem dúvidas, fascinante, mas se não tiver um propósito, pode se tornar vazio e automático.

Aprendi que para escrever não preciso me refugiar mais no universo do entretenimento, correndo o risco de produzir mais do mesmo, e sim olhar para fora com mais atenção, não me esquecendo do meu interior, deixar as minhas mãos serem dominadas por minhas vísceras, descobrindo o prazer de escrever com a alma. Assim como é necessário cuidar de cada uma das etapas do preparo de um prato, sem deixar outras distrações atrapalharem para não correr o risco de errar a medida do tempero, não cozinhar o suficiente ou queimar, o escritor precisa estar atento para não criar personagens e cenas que nem mesmo ele acredite serem possíveis. É preciso viver no modo manual, sem buscar atalhos e se distrair com tudo o que for brilhante pelo caminho.

Saciada a minha vontade de escrever, procuro agora outra atividade para me dedicar. Pode ser que eu esteja ficando velho, ou simplesmente cansado, porém já não quero mais trocar o meu cérebro, minhas sensações, opiniões e lembranças por um mundo de facilidades, automatizações e falta de atenção. Liberto-me do meu robô e volto a aceitar minha condição de humano. Uma caneta e um caderno nunca pareceram tão companheiros antes.

3 comentários:

  1. TOP O TEXTO, PARABENS AI PELO BLOG!

    (ABEL FILHO)

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  2. De vez em quando me pego pensando por que não é suficiente simplesmente o desejo de escrever. Colocar ideias em letras é um processo meio mágico, ele remexe com tudo o que eu acredito e geralmente termina com uma inconfundível sensação de prazer, mas ainda assim essa infinitude de distrações fica complicando meu caminho.

    Vontade de largar tudo e dedicar-me apenas às letras. =)

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