terça-feira, 9 de setembro de 2014

Entrevista: Roberto Muniz Dias fala sobre sua escrita intuitiva, estilo reflexivo e livros publicados

Autor de quatro romances, uma coletânea de contos e um estudo sobre personagens gays na literatura infantil, o escritor Roberto Muniz Dias é o entrevistado desta semana aqui no Blog do Ben Oliveira. Sua última publicação foi o eBook A Teia de Germano, disponibilizado na Amazon.

Sobre o autor – Roberto Muniz Dias, romancista, contista, poeta e artista plástico. Formado em Letras e Direito. Esse escritor de Teresina, Piauí, começou nas artes ainda na adolescência, escrevendo diários e desenhando croquis. Autor dos livros: Adeus a Aleto, Um Buquê Improvisado, Urânios, Errorragia, A Teia de Germano e O Príncipe, o mocinho e o herói podem ser gays.

Durante a entrevista, Roberto Dias falou sobre sua relação com a escrita e Literatura, seus livros publicados, a literatura gay e como ela pode ajudar a diminuir a homofobia e finalizou com uma mensagem para escritores iniciantes.

Confira a entrevista com o escritor Roberto Muniz Dias:

Ben Oliveira: Roberto, como foi o seu primeiro contato com a literatura?

Roberto Dias: Desde pequeno, eu tive contato com os livros proibidos de meu pai. Da sua biblioteca, eu roubava os pequenos marca-textos coloridos; depois com o tempo eu começava a ler Decameron, a Divina comédia, alguns filósofos e Machado de Assis, a quem ele devotava toda a atenção por considerá-lo um grande escritor.

Ben Oliveira: Seu primeiro romance, Adeus a Aleto está repleto de referências literárias e uma dose de metalinguagem. Leitores sem muita bagagem cultural podem não entender o livro. Como você avalia a questão da leitura no Brasil?

Roberto Dias: Eu tinha como amigo das leituras um bom dicionário. Meu pai o chamava do "O Pai dos Burros" e era assim que aprendi a ler Machado que usava palavras de um Português arcaico. Lembro-me agora do poeta Mário Faustino que escrevia poemas com referências diversas: latim, greco, francês; portanto acho que o leitor tem que se preparar para se deparar com estes problemas da sintaxe do escritor. Eu aprendia, a duras penas, a ler. Primeiro foi a ousadia de ler os grandes clássicos – que só foram plenamente entendidos mais tarde – e depois a influência de meu pai. Depois eu comecei a ler por uma vontade própria, escolhendo os livros que me atraíam. E comecei a gostar de mitologia por conta do diferente, do absurdo, das aventuras e do fantástico.

Respondendo a sua pergunta acho que isso não é problema para um leitor mediano, afinal toda a literatura é feita de intertextualidade. Harry Potter tem muito de mitologia. Portanto, acho que o leitor deve ser antes de tudo um pesquisador.

Ben Oliveira: Seu estilo é marcado por personagens reflexivos e flashbacks. Quais escritores influenciaram o seu processo de criação literária, desde o início?

Roberto Dias: Para ser objetivo, Clarice Lispector! É a lembrança mais forte de minhas experiências literárias. Devo a ela estas temáticas e o “fluxo de consciência”.

Ben Oliveira: Em todos os seus romances, seus protagonistas passam por um processo de descoberta e redescoberta de si mesmo e suas experiências. Há escritores que escrevem para não adoecer ou enlouquecer. Também não podemos negar a influência do subconsciente no processo da escrita. A arte literária tem te ajudado a se conhecer melhor e entender a humanidade? 

Roberto Dias: Sim! Depois de muito tempo vi uma entrevista da Clarice, a única que ela concedeu. E lá ela falava que escrevia para escapar da morte. E não deixa de ser uma verdade para muitos escritores. Escrever é uma tarefa ingrata, mas ela consegue nos colocar em histórias que podemos viver de uma forma libertadora. Minhas personagens são possibilidades de um viver próprio, que, às vezes, eu gostaria de ter vivido ou pelo menos experimentado.

Algumas vezes procurei uma lógica para escrita. Li até uns livros sobre escrita literária. Mas meu processo é mais intuitivo do que pesquisa – a não ser que seja necessário descrever um evento já conhecido, caso contrário eu invento com o elemento imaginativo. E comigo é sempre intuitivo a maior parte do tempo. Sou daqueles escritores que sonha com as histórias; estas histórias tiram meu sono. Sou visitado por vozes e personagens inquisidores. Anoto tudo. Assim foi com a escritura de Adeus a Aleto. Tenho lido alguns livros de Autran Dourado que tem um processo do qual me identifico muito: a não-linearidade, a intertextualidade, personagens familiares. Tudo isso nos compõe de certa forma. Sou apreciador destas leituras que nos compelem a acrescentar nossa contribuição imaginativa. Um livro desses nunca é o mesmo depois de uma segunda leitura.

A literatura é uma mimese da vida com contornos de todos os valores e temas que rodeiam a nossa realidade. É uma forma de tentar entender sim o processo de formação do ser humano, único capaz de empreender raciocínios imaginativos como forma de compreender as questões mais simples e as mais complexas. Alguns livros são verdadeiros tratados antropológicos, mesmo que apele para o fantástico ou absurdo.

Os romances de formação são instrumentos de entendimento da construção do homem, seus problemas existenciais, filosóficos, sociais e sexuais. Cada leitura, cada autor, cada enredo é uma forma de entender todo o processo interpessoal e relacional com o mundo. Tal como o primado de Heráclito, parafraseando sua frase mais célebre: Nunca somos os mesmos depois de um livro, nem o livro será o mesmo como o tempo.



Ben Oliveira: Você é graduado em Direito e Letras e Mestre em Literatura. Como esses conhecimentos te ajudam na hora de escrever?

Roberto Dias: Apenas com a bagagem da experiência. O conhecimento serve para abalizar algumas histórias, para dar um respaldo com certas temáticas e lastro para uma fundamentação de pensamentos. Mas ainda devoto à intuição todo este processo da escrita. E aquelas histórias que se escrevem são completamente plausíveis.

Ben Oliveira: Seus romances também são influenciados pela mitologia grega. Qual é o papel dessas narrativas em sua escrita? Como elas podem enriquecer suas histórias? 

Roberto Dias: A Mitologia serve para tratar de assuntos terrenos com aspectos metafóricos e fantásticos da realidade. Monstros e maldições são problemáticas (ou resoluções) mais terrenas do que podemos imaginar. Eles são significações de nossos medos, culpa, elementos moralizantes, epopeias de valores que devem ser reafirmados, superações e , principalmente, formas de sobreviver à própria realidade.

Ben Oliveira: Seu segundo romance, Um Buquê Improvisado aborda um tema ainda polêmico no país e pelo mundo, o casamento gay. Além de entreter e do resgate de si mesmo, suas obras trazem críticas contra a sociedade heteronormativa. Quais características são necessárias para que uma obra tenha qualidade literária?  

Roberto Dias; Bem, se você relacionou minhas preferências temáticas com qualidade literária, acho que você acertou. Eu tento trabalhar assuntos que podem ser importantes neste “entretenimento” dentro da literatura. Na verdade, qualidade literária está relacionada muito mais a uma avaliação canônica do que a escolha subjetiva por temas, mas esta escolha torna a escritura um pouco mais relevante. Estes temas contemporâneos são muitos caros para nossa sociedade que, cada vez mais tem que lidar com as diferenças. Há uma agenda de negociações que vem reparar as grandes desigualdades históricas. Meus romances viveram estes momentos: casamento homoafetivo, bullying, alienação parental, patriarcado, questões de gênero.

Ben Oliveira: Seu terceiro romance, Urânios trata do poliamor. A criação e destruição, a vida e morte, o amor e o coração quebrado. Mesmo num relacionamento entre três pessoas, alguns dos conflitos são os mesmos de um relacionamento a dois, como a posse, o egoísmo da paixão e a necessidade de se buscar o equilíbrio. De onde surgiu inspiração para escrever o romance?

Roberto Dias: Bem, Urânios é uma plêiade de assuntos que tomaram minha atenção durante essas experiências interpessoais. Fiquei reflexivo depois de uma reportagem que falava sobre uma relação poliafetiva numa cidade do interior de São Paulo. Fiquei imaginando como isso é muito subversivo e libertador, quebrando os parâmetros já engessados sobre felicidade dual e família tradicional – escrevi alguns textos sobre essa necessidade de rechaçar as novas configurações familiares por conta de partidos políticos. Então, juntei tudo no livro para tematizar esta questão envolvendo pessoas com históricos diferentes e como este processo específico de conformação homossocial é o duplo do preconceito dentro da sociedade.

A ideia surgiu sobre a questão do poliamor; das diferenças entre atitudes em relação ao amor; um questionamento sobre o que é o amor, se pode ser fragmentado ou devia ser inteiro? Uma divagação, em primeira pessoa, de como um indivíduo lidava com a ideia de dividir o objeto de desejo; como seria um contato que quebrasse todas as idiossincrasias internas sobre o amor romântico ou burguês. Essa pessoa se pergunta, dentro de uma estória não linear, entre o passado e o presente, nas lembranças e experiências de um amor nada convencional, como a mudança pode ser libertadora e, ao mesmo tempo um claustro. Em resumo, uma estória sobre desconstruir-se como indivíduo, reinventar-se e depois perder-se.

Urânios é uma desconstrução dos estereótipos, da reinvenção das identidades, do devir foucaultianos. Enfim, é um processo plenamente metafísico de análise do amor, dos ciúmes, do desejo e um processo dialético sobre medo, culpa e antagonismos ideológicos.

Ben Oliveira: Ainda há muita polêmica sobre a questão da literatura gay, se o termo ajuda a segregar as obras ou facilitam aos leitores a encontrar histórias com as quais possam se identificar. Levando em conta a universalidade da literatura, é fundamental essa rotulação de literatura gay ou com o passar do tempo, será uma classificação desnecessária?

Roberto Dias: Acho necessária por conta da visibilidade. Enquanto não misturamos com os livros das grandes editoras, devemos ratificar o local desta fala ainda singular. Quem sabe num futuro, bem próximo, tudo estará misturado de uma forma mais homogênea.


Ben Oliveira: Seu livro O Principie, O Mocinho ou o Herói podem ser Gays traz uma análise de duas histórias infantis relacionando à questão da homossexualidade. Qual é a importância desta produção de literatura infantil abordando a sexualidade e diversidade?

Roberto Dias: Este livro surgiu de uma aula na graduação em que uma renomada professora aqui de Brasília fez piadas pejorativas com pessoas homoafetivas. Usou palavras de baixo calão e não se atentou para esta manifestação marcadamente preconceituosa. Então tive um insight: como seria uma aula numa sala de alunos do ensino médio e fundamental?

Pensei logo em todo o histórico heteronormativo da nossa sociedade. Como é espinhoso este trabalho de educar crianças apartadas destes estereótipos normatizadores. Pra isso, li o trabalho de Bruno Bettelheim (A psicanálise dos contos de fadas) em que tive todo o embasamento para constatar que todos os contos de fadas tinham efeitos moralizantes e que fundamentavam uma heteronormatividade compulsória. Daí pesquisei livros infantis que tematizassem histórias homoafetivas. Pesquisei em algumas escolas aqui em Brasília, à época, e nenhuma trabalhava a questão da sexualidade em sala de aula.

Então, fiz este projeto de livro, estudando alguns autores especializados como Guacira Louro e Luiz Paulo da Moita Lopes. Usei como base para a análise dois livros que ainda não tinham sido traduzidos no Brasil. Acho que contribuí para o debate, necessário, de temas atuais para ajudar jovens na independência do pensamento e no respeito à diferença.

Ben Oliveira: Você acredita que a leitura pode ajudar a diminuir a homofobia? Como?

Roberto Dias: A literatura é uma representação da vida. Ela pode tratar de todos os temas. E se construímos personagens bem estruturados emocionalmente, preparamos um público para entender que aqueles “outros” são semelhantes ao todo. Quanto mais a literatura trabalhar a relação homoafetiva, a aceitação das diferenças mais estes temas parecerão mais corriqueiros e normais. Como disse Foucault, antes de a medicina associar homossexualidade à doença, a Literatura fez este papel. Então que ela desfaça!

Ben Oliveira: A literatura gay, no Brasil, ainda não é tão valorizada e presente nas livrarias. Recentemente, por exemplo, reportagens valorizaram a tradução de obras internacionais para o português, quando no próprio país existem vários livros voltados para o público LGBT. Por que o escritor nacional contemporâneo, gay ou não, ainda é tão desvalorizado no país?

Roberto Dias: É simples. Existe um grande agenciamento pelas grandes editoras. Recentemente John Green escreveu uma história gay, e apesar de pouca divulgação, ele teve a distribuição garantida por se tratar de um grande Best-seller.

Ben Oliveira: Qual é a sua opinião sobre o desenvolvimento da literatura gay no Brasil? 

Roberto Dias: Há muitos escritores bons, muitas editoras, muita boa vontade. Mas não temos muitos leitores.

Ben Oliveira: No final de 2013, você deixou o cargo de editor da Escândalo. Como foi a experiência dentro da editora que publica obras sobre o universo gay?

Roberto Dias: Eu era o garoto propaganda (brincadeira). Viajei muito com a Editora para promover nosso trabalho. Participei de várias feiras e debates. Contribuí para divulgar a literatura contemporânea e valorizar um trabalho de qualidade.

Ben Oliveira: Qual é a importância do papel do editor na vida dos autores?

Roberto Dias: Bem, deve-se entender que a relação que se estabelece é comercial. No entanto, o editor deve estar preparado para assessorar o trabalho do escritor na medida do possível. O trabalho de editor, especialmente de pequenas editoras, é muito delicado por conta do contato direto com o trabalho do escritor. Há muita demanda e muita incompreensão, mas ambos devem estabelecer uma relação de confiança mútua.

Ben Oliveira: Além de romancista, você também escreveu o livro de contos "Errorragia". Quais são as ressonâncias e diferenciais presentes na publicação, em relação aos seus outros livros publicados?

Roberto Dias: Eu comecei com o conto. É uma experiência de trabalhar um ritmo menor, menos complexo do que o romance. Eu adoro a dinâmica rápida do conto. O processo é o mesmo da escritura de um romance: personagens, estrutura, enredo, mas a finalização é sempre um pouco antecipada. No romance o trabalho ganha mais corpo, tem-se mais tempo e espaço para preparar os clímaces e os atropelos.

Ben Oliveira: Recentemente, você lançou o eBook A Teia de Germano na Amazon. É a primeira vez que você disponibiliza o livro digital antes do livro impresso. O que te levou a essa decisão? Quais são as vantagens e desvantagens desta escolha?

Roberto Dias: Para mim é uma questão de irreverência, coragem misturadas com uma vontade de publicar o trabalho. Voltar para a publicação independente revolve velhos problemas de escritores fora do grande mainstream. O trabalho é hercúleo. Demora-se muito para ter a análise de seus originais pelas grandes editoras. Por outro lado, a Amazon divulga seu trabalho para todo o mundo, coloca em contato como leitores diferentes e permite você escolher a percentagem de seus royalties. Eu ainda estou descobrindo os efeitos, mas já tive um feedback de um leitor em Portugal. Isso para mim é novo e desafiador.

Ben Oliveira: Quais são os seus próximos projetos literários?

Roberto Dias: Continuar escrevendo.
Estou traduzindo um livro meu , participando de projetos e concursos literários. Quero voltar a fazer minhas resenhas e já estou escrevendo novo livro.

Ben Oliveira: Qual dica você deixaria para escritores iniciantes, com base em suas próprias experiências?

Roberto Dias: Este ofício se resume em persistência. Não desista porque os problemas são muitos, mas para quem está vocacionado, a recompensa – seja como ela for desenhada pelos seus sonhos – é sempre prazerosa.

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