quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Resenha: Revival – Stephen King

Jamie Morton é um garotinho cujo caminho se cruza com o do pastor Charles Jacobs. O destino dos dois é transformado pelos incidentes da vida e uma misteriosa obsessão. O livro Revival, do Stephen King, publicado em 2015, pela Editora Objetiva (Suma de Letras), com tradução de Michel Teixeira, explora o fanatismo e como nossos vícios e crenças podem nos levar a uma trilha de autodestruição e flertar com o lado sombrio e desconhecido.


Narrado em primeira pessoa por Jamie Morton, Stephen King nos convida a conhecer a história de um garotinho e sua família em uma pequena cidade na Nova Inglaterra. Com uma dose de nostalgia, somos levados a mergulhar nesta teia de relações familiares, nos tornando cada vez mais próximos do protagonista, já que acompanhamos o seu amadurecimento com o passar dos anos e como as ações da narrativa foram moldando sua vida.

Então, quando o reverendo Charles Jacobs chega até a cidade deles, mesmo tendo uma diferença de mais de 20 anos de idade, Jamie e o homem acabam se conectando. Com os fieis da igreja sendo guiados por um pastor mais novo do que o anterior, as opiniões sobre Charles são divididas. Jamie e os irmãos acabam descobrindo que além da religiosidade de Jacobs, há um interesse evidente e obsessivo pela eletricidade e seus efeitos.

“… quantos de nós conseguem se lembrar em detalhes de coisas que aconteceram quando tinham entre seis e nove anos? Mas a escrita é algo maravilhoso e terrível. Ela abre poços profundos da memória que antes estavam selados”

Da fé que ajuda a comunidade até um terrível acidente que leva o reverendo a ultrapassar limites inesperados pelos outros, Jacobs acaba deixando a cidade. Embora fisicamente ele tenha se ausentado, anos se passaram, mas as memórias de Jamie e outros cidadãos permanecem marcadas por um sermão inesquecível.


A cada parte do livro, o autor vai marcando as linhas temporais. Além de poder fazer parte do envelhecimento de Jamie, como uma das marcas da escrita do Stephen King, acabamos viajando pelas lembranças do personagem principal – essa ligação entre os diferentes tempos, contribui para uma melhor construção de sentido na narrativa, cria uma sensação de familiaridade e verossimilhança, como quando nos perdemos em devaneios e nostalgias e também cria um efeito de circularidade. King brinca com a linguagem, entrelaçando-a com a trama.

“Mas e o roteiro da nossa vida? Quem escreve? O destino ou o acaso? Quero acreditar que seja o último. Quero mesmo, do fundo do coração. Quando penso em Charles Jacobs – meu quinto personagem, meu agente de mudança, minha Nêmesis –, não ouso acreditar que a presença dele em minha vida tenha qualquer ligação com o destino, pois isso significaria que todas aquelas circunstâncias terríveis – aqueles horrores – estavam fadadas a acontecer. Se for assim, vivemos na escuridão, como animais em uma toca, como formigas nas profundezas de suas colônias”

O romance mostra como os dois personagens principais são afetados pelos incidentes, como as perdas e desilusões. Muitos anos depois, Jamie Morton, agora mais velho e viciado em drogas, se encontra com Jacobs por acaso. Estariam os dois completamente diferentes? Os laços voltam a se fortalecer, após esse primeiro reencontro, e Jamie se envolve mais do que gostaria. Como nem toda bondade é gratuita, o ex-pastor acaba cobrando o seu preço, levando às deliciosas reviravoltas e revelações da trama.

Há muitos elementos recorrentes nas narrativas do Stephen King em Revival – assim como traços autobiográficos, como a relação com o vício, cidade no Maine, os horrores sobrenaturais e perversões humanas.  Ao longo da leitura, é possível captar uma rica intertextualidade com outros livros do Stephen King, bem como com obras de outros autores – os quais ele dedica o romance desde o início do livro –, como Mary Shelley, Bram Stoker, H. P. Lovecraft, Robert Bloch e Peter Straub.

“A vida é uma roda, e sempre volta ao ponto onde começou”

Stephen King, mais uma vez, me cativou com sua escrita. Um desses livros que à medida que vamos nos aventurando pela página, sentimos vontade de construir nossas próprias histórias. Há algo no texto de King que me movimenta e me conecta com o amor pela arte da ficção. Revival não é tipo de leitura para se assustar – apesar de não poder afirmar isso para todos, afinal, o terror  e o medo são muito subjetivos –, mas é uma obra que certamente nos inquieta e provoca estranhamento, ao mergulhar e misturar temas do terror sobrenatural e psicológico com questões do cotidiano, como o fanatismo religioso, o vício em drogas, o envelhecimento, as doenças,os acidentes, a morte e o que vem após ela. Revival é uma bela homenagem aos precursores de Stephen King e também mais uma conquista em sua carreira!


Sobre o autor – Stephen King é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo inteiro. Os mais recentes incluem Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas (vencedor dos prêmios Bram Stoker e British Fantasy), Doutor Sono, Joyland, Sob a Redoma (que virou uma série de sucesso na TV) e Novembro de 63 (que entrou no TOP 10 dos melhores livros de 2011 na lista do New York Times Book Review e ganhou o Los Angeles Times Book Prize na categoria Terror/Thriller e o Best Hardcover Novel Award da organização International Thriller Writers).

Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.


E você, já leu Revival, do Stephen King? Ficou com vontade? Comente!


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