sábado, 8 de abril de 2017

Escritores Malditos

Quando escrevi meu livro de terror Escrita Maldita, os escritores malditos foram minha inspiração. Não quis me focar somente em um autor. Acredito que, de certa forma, diferentes obras literárias de determinadas temáticas estão conectadas. Escritores de todas as épocas lutaram e ainda lutam com seus próprios demônios, como a insegurança, a Síndrome do Impostor, a depressão, a ansiedade, os vícios e a sensação de deslocamento, só para citar alguns deles. Alguns lutam para entrar em um meio fechado, outros para permanecer. Entre os desafios do cotidiano, grande parte deles envolve o dinheiro e o reconhecimento, afinal, diferente do que muitos possam acreditar, não há nada de errado em lucrar com a atividade que você gosta, o que te permite continuar dedicando tempo e energia para o ofício da escrita. Escritores também pagam contas.


O protagonista do meu livro se chama Daniel Luckman. Quis brincar com a ideia de que ele era um cara de sorte. Alguns podem torcer o nariz, como acontece muito no Brasil e dizer: “A história se passa fora do país”. A criação literária é um processo aberto a múltiplas possibilidades. Cada história é uma história. Dificilmente seria possível para um autor novato se tornar um best-seller por aqui, então, por razões óbvias, a história se passa nos Estados Unidos, onde o mercado editorial tem uma estrutura mais organizada e com maiores chances de um escritor poder sobreviver de escrita por inúmeros motivos, desde o idioma global até as facilidades de se conseguir traduções e adaptações para diferentes formatos. Prova disso é que autores nacionais veteranos, mesmo após muitos anos de sucesso, continuam penando para conquistarem seu lugar e lidam com inúmeros problemas, como a questão dos direitos autorais, um dos pontos fundamentais para escritores que dedicaram suas vidas à arte de escrever.

Após o sucesso do seu romance Lágrimas Negras, Daniel Luckman é convidado a escrever um livro com Laurence Loud, um escritor veterano, reconhecido por inúmeras obras de terror que foram sucessos de venda. É um encontro entre o novo com o velho. Eles estão unidos pelas palavras, pela paixão por escrever histórias de horror e desde que começam a produzir juntos, coisas estranhas acontecem dentro da casa. A linha entre a ficção e a realidade, a loucura e a sanidade, os pesadelos e as alucinações se dissolvem. Uma história de mistérios, passados sombrios e amor. Quando dois escritores de terror se juntam para escrever uma história, tudo pode acontecer. O processo de criação pode ser intenso, as emoções podem ficar confusas. Você estaria disposto a sacrificar tudo pelos seus sonhos?

“Escrevo para não enlouquecer”. “Quando não escrevo estou morto”. Poderia ser uma fala de Charles Bukowski, Daniel Luckman, Clarice Lispector, minha ou de muitos escritores (independente do gênero literário ou das temáticas). A arte tem o poder de transformar as coisas. Dos pesadelos, das memórias traumáticas, da dor… A literatura salva inúmeras pessoas, desde os autores que podem exorcizar seus próprios demônios até os leitores que, ao se colocarem na pele dos personagens, acabam bebendo uma dose de catarse.

A história de Daniel e de Laurence são cíclicas, seja dentro do romance ou se pensarmos nela fora do contexto ficcional. A literatura de horror continua sendo vista por alguns como mero entretenimento de massa, lixo cultural, entre tantos outros termos pejorativos. Sem dúvidas, Edgar Allan Poe foi um escritor maldito. Quando penso em sua biografia, é difícil não me emocionar. Poe não só lutou contra seus demônios, como colocou muitos deles no papel. A morte sempre foi sua companheira. A loucura sempre esteve rondando. O corvo nunca mais deixou-o esquecer. Gatos emparedados ruminaram pensamentos sombrios na mente de seus personagens.

O diferente sempre incomoda. Não é só na temática de horror que os escritores lidam com os preconceitos de seus tempos e levam anos para serem reconhecidos. Franz Kafka sabe bem disso. Com seu Artista da Fome e Carta Ao Pai, conhecemos a faceta do escritor que luta para defender sua paixão pela escrita, ainda que o mundo pareça esmagá-lo. Quantos escritores ao longo da vida não se sentiram como Gregor Samsa? O escritor que é visto como um inseto. Um ser que incomoda, provoca estranheza. Tudo o que Kafka mais queria fazer era se dedicar à escrita, mas precisava sobreviver, trabalhar com coisas que odiava – quantos artistas não se identificam? O respeito só se adquire diante da ‘normalidade’? Até que ponto os escritores são melancólicos somente por suas histórias de vida e criações e não pela sociedade que joga sobre eles uma capa de invisibilidade ou julgam como loucos aqueles que são diferentes?

Paulo Coelho, goste ou odeie, tem reconhecimento mundial e é tratado com respeito em inúmeros países, embora dentro do Brasil continua sendo desmerecido por muitos. A ironia é ver muitos criticando sem mesmo terem lido seus livros. Independente de gosto pessoal, o que muitos não entendem é a intencionalidade da escrita de Paulo Coelho. Muitos confundem sua simplicidade das palavras com um vazio intelectual. Não sei de onde vem a tolice que é repassada de geração a geração e a incapacidade de ler as entrelinhas. Um homem que passou anos de sua vida dedicando à escrita, leitura e mesmo diante de tantas rejeições, conseguiu conquistar o seu lugar ao sol, merece, no mínimo, respeito. Talvez caia bem ler a biografia sobre Paulo Coelho escrita por Fernando Morais. Sinto admiração por escritores que conseguem quebrar os ciclos, especialmente quando eles vêm de um país com tão poucas leituras e onde se valoriza tão pouco a figura do escritor.

O sucesso incomoda? Penso que é conveniente para muitos que os escritores morram fracassados. Escritor quando passa fome é visto como um inútil, alguém que deveria procurar um trabalho de verdade. Quantos escritores não se cansam de ouvir ao longo da vida aquela frase que martela e martela em sua cabeça, fazendo o prego atravessar o crânio e rasgar o peito e a alma: “Você só escreve ou você trabalha?”. Quando faz sucesso, é desmerecido. Poucos conseguem quebrar suas correntes, focar nos seus leitores, no seu público-alvo e não nos que os veem como concorrentes. Nenhum livro vai agradar a todos. Nenhum autor é unânime, independente da época em que foi escrito, do gênero ou temática. Parece tão simples, mas alguns escritores se martirizam a vida inteira por isso e criam um bloqueio tão grande, que mesmo quando conseguem terminar seus livros, entram em pânico só de imaginar que suas obras serão publicadas e lidas pelos outros.

Não poderia deixar de lado Stephen King, Neil Gaiman e J. K. Rowling. Autores cuja importância vai além do que escreveram, dos livros best-sellers e sucessos de bilheterias com adaptações de suas obras para o cinema, mas contribuíram com a formação de milhares de leitores. Enquanto alguns perdem o tempo com preconceitos literários, classificando alguns livros como literatura comercial e entretenimento barato, outros, acabam contribuindo muito mais do que autores de “literatura séria” (o leitor que me desculpe, mas quase vomitei a palavra no teclado). Os leitores querem livros com os quais possam se identificar com os personagens e mergulharem nas histórias. Independente de ser terror, fantasia ou qualquer gênero que é visto pelos críticos e, ironicamente, por outros escritores, como subliteratura. É muito fácil esquecer que você, muitas vezes, não é o público-alvo. Mais fácil ainda é criticar e não escrever suas próprias histórias ou desmerecer o trabalho de quem passou anos se dedicando à escrita e passou por muitas dificuldades financeiras, emocionais e flertou com a morte de tantas maneiras. Encarar o próprio abismo é mais difícil do que criticar o do outro.

Em Grande Magia, Elizabeth Gilbert fala sobre o gênio criativo e a autodestruição. Será que todo escritor precisa ser maldito? Será que precisamos continuar perpetuando o mito do artista perfeito, depositando em suas costas todo o peso do mundo? Muitos escritores não querem se tornar ricos, tampouco têm interesse em se tornar celebridades. Para muitos, poder se dedicar à escrita seria mais do que o suficiente. O problema é que diante da competitividade, em vez de escritores se comprometerem mais com a formação de leitores, o que vemos é o boicote e o linchamento intelectual. Acredite, é muito fácil criticar, mas poucos são capazes de escrever.

“Reconhecer que as reações das pessoas não pertencem a você é o único jeito saudável de criar. Se pessoas gostam do que você criou, incrível. Se pessoas ignoram o que você criou, que pena. Se as pessoas não entendem o que você criou, não se preocupe. E se as pessoas absolutamente odeiam o que você criou? E se as pessoas o atacarem com sarcasmo selvagem, insultarem sua inteligência, difamarem seus motivos e arrastarem seu bom nome pela lama? Apenas sorria docemente e sugira – tão educadamente como você possivelmente consegue – que vão fazer sua própria arte do caralho. Em seguida, teimosamente, continue a fazer a sua" – Elizabeth Gilbert, Big Magic (Tradução: Ben Oliveira)

A vida de muitos escritores seria mais fácil se eles tivessem consciência de que somos todos limitados, assim como a linguagem e a literatura são. Esperar a perfeição de algo imperfeito parece tão perigoso quanto se jogar de um prédio, esperando que o anjo da morte não venha te beijar. Certa vez, um colega escritor me perguntou qual era o meu dragão e por qual motivo eu relutava tanto em publicar os meus trabalhos, já que estava me dedicando há anos a escrita e devorando dezenas de livros por ano. A leitura e a escrita me salvam diariamente dos meus demônios do meio-dia, como Andrew Solomon define a depressão – os mesmos que Daniel Luckman teve que enfrentar para viver os seus sonhos. Depois de passar por muitos apuros, sacrificar inúmeras madrugadas e finais de semana durante muitos anos, estar dentro de um carro que virou 180 graus, abraçar e ser abraçado pela solidão, ter crises de pânico, ansiedade e existenciais por causa da pressão de ganhar dinheiro, desemprego mesmo em vagas fora da área de atuação profissional e de perceber o quanto ser escritor no Brasil para muitos ainda é uma piada e ver que o desrespeito não vem só de fora, mas é veneno que ainda circula dentro do meio literário, eu parei de deixar para depois e não me arrependo.

Se você é escritor, artista ou tenha qualquer outra atividade profissional que os outros só veem como um hobby, precisa deixar claro a importância do seu tempo e do que você faz. Começa com o respeito próprio. Se você não valoriza o seu ofício, não espere que os outros vão respeitar. Eventualmente, nós sempre pagamos os preços de nossas escolhas. O problema é que nos focamos mais nos sacrifícios do que nas conquistas (por menores que sejam, cada passo em direção aos seus objetivos faz toda diferença e o apoio dos leitores nos mantêm na linha). Ao longo da vida você precisa fazer escolhas: deixar seus caminhos serem guiados pela vontade do outro ou se arriscar nos próprios sonhos. Em um meio de egos inflados e espinhos, é preciso tomar cuidado para não se espetar. Quando vejo escritores que querem ser lidos, mas não leem outros autores contemporâneos, como se tudo o que valesse a pena são suas próprias obras e os clássicos da literatura, me pergunto como eles não percebem que estão jogando contra si mesmos. Salvai-nos do complexo de vira-lata.

Em um país com pouquíssimos leitores, desincentivar a leitura não é uma escolha esperta. Leituras não são estáticas: livros levam a outros livros. Escritores de várias épocas lidaram com inúmeros preconceitos. Não é algo que se restringe aos dias atuais. Tenha discernimento: o que serve para um, não necessariamente serve para todos. Pare de generalizar tudo. Pessoas são diferentes e convenções mudam. O clássico de ontem foi desvalorizado em sua época. E independente da rotulação e gostos, há sempre algo a ser apreciado no trabalho de um escritor; existe uma teia mágica que conectam histórias.

Só por hoje, eu sei que o meu dragão não vai me devorar. A luta pelos sonhos continua. Essa poderia ser a minha história, a de Daniel Luckman, a sua ou de inúmeros outros autores e, muitas vezes, ela começa assim… O garoto estranho cresceu e se tornou escritor.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

4 comentários:

  1. Ótimo texto, Ben. Acho que esse preconceito literário não ajuda em nada, pelo contrário. Num país onde um dos livros mais comercializados é o Vade Mecum, ele é extremamente prejudicial.

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    1. Oi, Ju!
      Muito obrigado pela visita e pelo comentário. Preconceito literário, muitas vezes, é um tiro no pé. Além de criar estigma entre leitores, acaba afastando potenciais leitores. É inegável a influência de muitos escritores na formação de novos leitores... Enquanto muitos que só apontam o dedo, nem sempre se esforçam para promover a leitura. O ego fala mais alto.
      Abraços

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  2. Muito bom esse seu "grito" contra o preconceito. Temos que fazer o que gostamos, pois se não acreditarmos em nosso potencial e trabalho, ninguém acreditará. Um dia o reconhecimento chega.

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    1. Oi, Andreia! Muito obrigado pelo comentário. Temos que gritar sempre contra o preconceito, principalmente quando ele vem do próprio meio. Enquanto fora os autores escrevem o que tem vontade, por aqui rola uma tentativa de enquadrar tudo. Gratidão pela visita.

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