sexta-feira, 28 de julho de 2017

Resenha: Legião – William Peter Blatty

O livro Legião (Legion), previamente publicado como O Espírito do Mal, do William Peter Blatty, é  a continuação de O Exorcista. Para quem espera qualquer conexão direta com o livro sobre Regan, a garotinha possuída e as sucessivas tentativas de ajudá-la a lidar com seus demônios, no romance sequencial o autor explora outras nuances do mal. O detetive William F. Kinderman é levado a investigar uma série de assassinatos. A obra ganhou uma nova tradução feita por Eduardo Alves, publicada pela editora DarkSide Books, em 2017.


Entre suas próprias inquietações filosóficas sobre a existência de Deus e os crimes que chegam até ele diariamente, não é tão difícil entender as motivações do protagonista de querer encontrar um sentido para tudo aquilo que o rodeia. Quando assassinatos brutais voltam a acontecer na cidade, um modus operandi semelhante a um de serial killer, com detalhes que só pessoas diretamente envolvidas com o caso poderiam saber, o detetive William F. Kinderman se vê diante um desafio enlouquecedor: descobrir quem é o assassino e de que forma ele está conectado com os crimes originais, quando o principal suspeito morreu há mais de uma década.

A maior parte do romance é narrada em terceira pessoa, se focando no ponto de vista do Kinderman. Ao longo do livro todo o personagem nos faz questionar o que está nas entrelinhas da trama e também nos faz refletir como algumas profissões exigem não só uma boa saúde mental, mas um bom alinhamento moral. William Peter Blatty nos coloca na pele de um personagem questionador.

"Quarenta e três anos na força policial e ele já tinha visto de tudo. Não tinha visto de tudo? E agora isso. Por um instante, experimentou mecanismos de fuga conhecidos: imaginar que o universo e tudo nele eram apenas pensamentos na mente do criador; ou que o mundo da realidade externa não existia em nenhum outro lugar a não ser em sua própria cabeça, de modo que nada fora dele sofria de verdade. às vezes, isso funcionava" – Legião, William Peter Blatty

Com uma pegada de romance policial, Legião é um livro de terror. O medo é uma emoção complexa e pessoas tendem a ter diferentes percepções. Por exemplo, embora Kinderman tenha seu espírito ora massacrado, ora amaciado, pelos acontecimentos constantes, o personagem tem um medo terrível sobre propósitos. Se nossas experiências e vivências influenciam nossas maneiras de enxergar o mundo, logo também são responsáveis por nossos estados emocionais. O protagonista luta com a noção de divindade e de tentar encontrar uma luz sobre toda a escuridão que encobre sua vida.


Este questionamento de Deus e da maldade acabam se conectando com O Exorcista. Para quem criou expectativa de que o livro teria a mesma pegada do livro de terror sobre exorcismo, é possível ficar frustrado, mas para quem é paciente e consegue apreciar cada parte de Legião, dá para se deliciar até o final do romance. Eu diria que é preciso tomar cuidado com o que desejamos. O detetive Kinderman queria respostas, exibições e manifestações. Se para toda luz, há também escuridão, alguns sinais acabam chegando até ele.

"Será que o universo tridimensional era uma construção artificial projetada para ser acessada a fim de resolver problemas específicos que não poderiam ser resolvidos de nenhuma outra maneira? Será que o problema do mal no mundo tinha sido criado de propósito? Será que a lama vestia um corpo como os homens vestem trajes de mergulho para poderem entrar no oceano e trabalhar nas profundezas de um mundo estranho? Será que nós escolhemos a dor que sofremos com inocência?"  Legião, William Peter Blatty

William Peter Blatty criou um jogo sutil de esconde-esconde. Quanto mais os personagens se aproximam do mistério por trás dos crimes, mais coisas estranhas continuam acontecendo. Se em O Exorcista, o ponto forte do romance foi mostrar que existem fenômenos paranormais que nem mesmo os padres conseguem explicar e os profissionais da saúde, muitas vezes, ficam de mãos atadas na hora de ajudar a vítima e a história se passa dentro da casa, em Legião, o leitor é transportado para as ruas, transitando em diferentes espaços e mostrando que a maldade não tem limites. Aliás, para quem gostou, vale a pena conferir a série The Exorcist, inspirada na obra do William Peter Blatty, que acabou expandindo o universo ficcional: mais possessões, questionamentos e até mesmo uma teoria de conspiração envolvendo a igreja.

Grande parte do livro provoca uma angústia crescente. Eventualmente, as dúvidas de Kinderman só aumentam e acabam saltando para fora da página. É difícil não ficar tão intrigado e não se deixar levar pelas divagações do detetive. Diante de tantos assassinatos, o desenrolar da trama acaba fazendo uma ponte com outros casos, como a morte do padre Karras e o caso do Geminiano (inspirado no assassino do Zodíaco). Kinderman testemunha a linha tênue entre a loucura e o sobrenatural, percebendo os danos causados por legião. William Peter Blatty consegue amarrar a trama, demonstrando que apesar das inúmeras coincidências e experiências, quando se tratam dos fenômenos espirituais é mais fácil conseguir uma prova de existência do demônio do que de Deus.

"As vozes são reais. Acredito que elas pertençam aos mortos. Isso nunca poderá ser provado, mas que elas emanam de intelectos incorpóreos – pelo menos como nós conhecemos – pode ser demonstrado de forma convincente e científica. A Igreja Católica possui os meios – e, Deus sabe, deveria ter o interesse – para desenvolver um conjunto de provas científicas que prove que essas vozes existem, que não vêm de uma fonte terrena, que desafiam uma explicação material e que podem ser reproduzidas repetidas vezes em um laboratório por máquinas e homens pragmáticos"  Legião, William Peter 

O projeto gráfico do livro Legião ficou bem lindo. O contraste entre o azul e o vermelho captou bem a essência da obra que retrata a dualidade trabalhada ao longo da trama. A cruz normal e a cruz invertida, a batalha entre o bem e o mal. Após os acontecimentos de O Exorcista, levando em conta de que o livro de terror foi baseado em um caso real, acredito que até mesmo o autor foi transportado para essa espiral de questionamentos, como o Kinderman. Afinal, saber que alguém pode perder o controle completo e ser dominado por criaturas inumanas pode ser bem assustador e reflexivo, quando as melhoras não se apresentam e tudo o que é resta é a desesperança.


Sobre o autor – William Peter Blatty (1928-2017) escreveu diversos romances e roteiros e é conhecido pelo mega best-seller O Exorcista, publicado em 1971. Foi roteirista e produtor de sua adaptação para o cinema em 1973 e com ele ganhou três Globos de Ouro e o Oscar de melhor roteiro. Legião, publicado originalmente em 1983, foi adaptado para o cinema em 1990 com o título O Exorcista 3 e dirigido pelo próprio autor.
***
Se você desta temática, não se esqueça de conferir o vídeo do meu canal do YouTube sobre o livro Exorcismo, do Thomas B. Allen. Esse livro foi escrito bem depois de O Exorcista, mas enquanto o William Peter Blatty escreveu um livro de terror sobre o caso de possessão, o jornalista tentou recontar a história. Apesar das diferentes estruturas: ficção x não ficção, há muitas similaridades entre o que possivelmente teria acontecido e o que foi recontado na obra que se tornou um clássico do terror na literatura e no cinema.



*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

3 comentários:

  1. Apesar de ter mto medo do tema, sua resenha me fez ficar curioso pra lê-lo! *-*

    Abraços.
    Alex, do Um Bookaholic. <3

    umbookaholic.com | Canal | @umbookaholic: Twitter | Instagram

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    Respostas
    1. Oi, Alex! Em nível de terror, é bem menor do que O Exorcista, viu? Acaba sendo um livro mais para refletir mesmo, com uma pegada filosófica.
      Abraços

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    2. Ahhh! Era só o que eu precisava ouvir pra dar uma chance! <3

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