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Destaques

Sobre rabiscos e telas brancas

A tela branca pode ser um convite à explosão criativa ou uma tortura ao artista que sente seu espírito definhando diante da pesada realidade. Em tempos de crise e ódio, a arte fica esquecida e é vista como desimportante; ironicamente, é quando mais precisamos dela, de algo que nos faça sentir vivo e toque as partes atordoadas.


O som dos dedos se movendo pelo teclado era como fantasmas de uma vida distante. É incrível perceber quantas vezes nós deixamos algumas partes nossas morrerem ao longo de nossas existências; as máscaras, antes tão confortáveis, agora incomodam e não nos servem mais. Leva tempo até ficarmos satisfeitos e ajustados à nova realidade. Viver é admitir que sabemos pouco sobre nós mesmos e há sempre algo novo que pode nos transformar, seja para o bem ou para o mal.

O artista encara a tinta respingando pela tela. Para o espectador sem intimidade, nada faz sentido, a desconexão de ideias é tormentosa; para ele, o lembrete de que sua arte nunca o abandonaria. Como poderia…

Asperger na adolescência e amizade são temas do livro Em Algum Lugar nas Estrelas

O que dois adolescentes bem diferentes podem ter em comum? Bom, para começar, os dois têm seus próprios sentimentos e desejos. O livro Em Algum Lugar nas Estrelas (Navigating Early), da escritora Clare Vanderpool, conta a história de Jackie e de Early e de como a amizade entre eles se fortalece em uma aventura. A obra literária foi publicada no Brasil pela editora DarkSide Books, em 2016, com tradução de Débora Isidora.


Compre o livro Em Algum Lugar nas Estrelas (Clare Vanderpool): https://amzn.to/2Hqtg1B

Para quem prefere vídeos, saiu um no meu canal. Mas acredito que o texto será mais completo:



Para começar e ser bem transparente, não poderia deixar de dizer que dificilmente eu não gostaria do livro. Faz pouco tempo que descobri que tenho Síndrome de Asperger e acredito que falar mais sobre o autismo na ficção (livros, filmes e séries) pode ser uma ótima forma de ajudar a diminuir um pouco do preconceito e levar mais informações sobre essa condição neurológica tão desconhecida por muitos, que provoca confusão até mesmo em médicos e psicólogos.

Geralmente, os aspies – como são conhecidos quem tem a síndrome caracterizada por uma forma de autismo leve – têm dificuldades nas interações sociais, mas não tem a capacidade intelectual afetada, existem muitos estereótipos e dificuldade de diagnosticação de autistas pelo mundo inteiro. E por que é importante falar isso? Crianças autistas não deixam de ser autistas conforme elas envelhecem, elas se transformam em adolescentes, adultos e idosos autistas. Então, quando penso em todo o preconceito que existe sobre o autismo, não é tão difícil entender quando ele vem de pessoas sem conhecimento, se até mesmo quem deveria ter estudado e obtido informações sobre o assunto tem deixado a desejar. Nesse ponto, a literatura e os produtos culturais podem ajudar na identificação.

Segundo ponto é que eu sou um fã da editora DarkSide Books. Quem acompanha o blog há anos, já deve ter percebido. As chances de eu não gostar de um livro deles é mínima. Acredito que além das lindas capas, os projetos gráficos são encantadores e o projeto editorial me faz vibrar, seja porque amo livros de terror e de fantasia (e também escrevo), seja porque eles têm apostado em personagens diversos – além de Em Algum Lugar nas Estrelas, a editora também já publicou um livro narrado na visão de uma personagem que tem esquizofrenia (A Menina Submersa) e um livro de terror sobre a família de um garotinho que tem Asperger (O Menino Que Desenhava Monstros).


Mas vamos ao que interessa... Em Algum Lugar nas Estrelas é um romance de ficção de aventura que se passa no Maine e traz a história de Jackie, um garoto que perdeu a mãe e adorava contá-lo histórias sobre as estrelas e de Early, um garoto que tem síndrome de Asperger e é incompreendido pelas pessoas ao seu redor, fascinado pela história do número Pi (hiperfoco). Os dois se aproximam no colégio, mas os primeiros contatos não são os mais agradáveis. Até que Jackie se acostume com o jeito diferente de Early de enxergar o mundo, ambos embarcam em uma jornada.

“Antes de as estrelas terem nomes, antes de os homens saberem como usá-las para traçar seus caminhos, antes de alguém se aventurar além do próprio horizonte, existia um menino que se perguntava o que havia além de tudo aquilo. Ele olhava para as estrelas com admiração e fascínio, mas o fascínio não era consequência só da veneração. Era fruto também de uma pergunta: por quê?” – Clare Vanderpool, Em Algum Lugar nas Estrelas

Jackie mal imagina que sua aventura ao lado de Early o levará a conhecer mais sobre as estrelas, os números e também sobre a vida. Todos nós temos assuntos que nos hipnotizam e nos fazem perder o sono (bom, pelo menos, muitas vezes, é assim com os autistas e seus interesses) e é instigante ver o sentido que Early dá para o Pi. Não se trata simplesmente de um conceito, o garoto inventou uma história que o ajuda a dar sentido para sua própria existência. Vindo de alguém tão novo, é impressionante como a inteligência dele o destaca e como seus conhecimentos podem ser absorvidos quando as pessoas dão a oportunidade do garoto falar e se dispõe a escutar.

As barreiras levantadas ao redor de Early são quebradas ao longo da narrativa. Da mesma forma que Jackie se aproxima mais do amigo, o leitor vai entendendo melhor que os comportamentos do garoto, embora não façam sentido para pessoas não-autistas, são o que o ajudam a se acalmar: como separar as gomas por cores; escutar músicas de acordo com o clima e/ou dia da semana e se apegar à história. Ao virar da página, percebemos que apesar de diferentes, para que exista um relacionamento entre os dois, eles descobrem que também existem pontos em comum: como olhar para as estrelas.

“Às vezes, é melhor não ver todo o caminho que se estende diante de você. Deixa a vida surpreendê-lo, Jackie. Há mais estrelas por aí do que as que já têm nome. E todas são lindas” – Clare Vanderpool, Em Algum Lugar nas Estrelas

O livro nos leva a perceber que se a infância pode ser difícil, a adolescência pode ser terrível quando não temos a companhia certa. Jackie gosta de relembrar as coisas que a mãe costumava dizer para ele e Early é órfão e, como muitos autistas, têm dificuldade de ser bem aceito pelos outros estudantes e acaba fazendo amizade com pessoas mais velhas, como o zelador do colégio.


Embora a solidão de Early não o incomode, especialmente porque ele se cerca das coisas que tanto gosta, o romance nos faz refletir sobre essa dificuldade de comunicação e como o preconceito atrapalha a conexão. Em vez de conhecer, muitas pessoas preferem julgar e esquecem que apesar dos interesses restritos, autistas também gostam de se conectar com pessoas que tenham empatia, paciência, curiosidade e entendam que mesmo com algumas limitações, a amizade não só é possível, como também é importante para ambos lados. Autistas são leais e Early deixa isso bem claro do início ao final do livro em sua jornada à procura de algo que se perdeu.

“Não são só números. E não estou inventando uma história. A história está nos números. Olhe para eles! Os números têm cores... azul do oceano e do céu, grama verde, um sol amarelo e brilhante. Os números têm textura e paisagem, montanhas, ondas, areias e tempestades. E palavras... sobre Pi e sua jornada. Os números contam uma história. E você não merece ouvi-la” – Clare Vanderpool, Em Algum Lugar nas Estrelas

Clare Vanderpool conseguiu traduzir de forma simples algo tão complexo que ainda intriga médicos e psicólogos, os comportamentos de autistas. Early é um personagem que nos faz enxergar o lado cômico e triste de ser diferente. Seja pelo excesso de sinceridade e incapacidade de perceber quando precisa se controlar, principalmente diante do perigo e da ingenuidade, Early e Jackie começam a jornada e se transformam com as experiências ao longo de cada reviravolta. Muitas pessoas se focam tanto no lado negativo do autismo, que esquecem que existem muitas qualidades que fariam muita diferença na sociedade, não só na parte intelectual ou trabalho, mas na bondade.

As memórias fragmentadas e as aventuras dos dois garotos vão construindo suas próprias narrativas. Jackie e Early descobrem que mesmo sabendo das estrelas e dos números, há tanto que ainda precisam desvendar e confiando na própria intuição e se cercando das pessoas certas, mesmo quando a jornada é difícil, tudo fica mais leve. Um livro bem catártico que se foca no lado positivo das amizades e faz justiça poética ao bullying e preconceito que autistas de diferentes graus e idades enfrentam diariamente.

Confira três trechos do livro:



Veja também: Asperger Adulto: A Diferença Invisível

Sobre a autora

Clare Vanderpool foi a primeira autora estreante a receber o cobiçado prêmio Newbery Medal, da American Library Association, por Moon Over Manifest, seu livro de estreia. EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS é seu segundo romance. Comparado a clássicos como Huckleberry Finn, de Mark Twain, Em Algum Lugar nas Estrelas entrou na lista dos mais vendidos do New York Times e vem sendo adotado como um livro indispensável por várias escolas nos Estados Unidos. Uma leitura encantadora para leitores de todas as idades.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

Comentários

  1. Que lindo Ben! Seus textos sempre são incríveis e trazem uma vontade imensa de ler o que você tá lendo ou escrevendo. Descobrir e assumir uma síndrome não teve ser fácil. Admiro muito você que desde sempre se faz tão presente nesse mundo literário.

    Você veio para fazer diferença ao mundo! Obrigada por compartilhar.

    Abraços,

    Natália

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    Respostas
    1. Oi, Natália! Realmente não é fácil, mas também não é algo a se envergonhar. Vejo que muitas pessoas esperam uma postura do autista no cantinho dele, quando muitos têm vergonha de compartilhar seus conhecimentos com o mundo: no meu caso, os que obtenho com os livros. Sou muito grato pelo seu comentário e pela leitura. Fico feliz em ter despertado o seu interesse \o/ Acredito que todos nós podemos fazer a diferença.
      Abraços

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