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Destaques

Lovestruck In The City: Série sul-coreana explora as emoções e fases dos relacionamentos amorosos

Diferente de muitos doramas coreanos que são mais longos, Lovestruck In The City tem um ritmo mais ágil e leva o telespectador para os encontros e desencontros de três casais que fazem parte do mesmo círculo social, em uma linguagem mais interativa, na qual os personagens contam suas próprias versões em frente às câmeras. A série de 2020 está disponível na Netflix . Para quem não tem muito contato com o universo dos dramas coreanos, a série dirigida por Park Shin-woo é uma boa opção, já que os episódios são curtos em relação ao formato tradicional e trazem o desenvolvimento dos relacionamentos desde os primeiros episódios – fugindo um pouco do padrão no qual o telespectador tem que assistir até o final para ver os personagens se declarando e sofrendo silenciosamente. Outro diferencial em relação a muitas produções coreanas é que os atores se beijam mais e o roteiro aborda assuntos que ainda são tratados como tabus por muitas séries da Coreia do Sul, como o sexo. Porém, embora se apro

The Sons of Sam: Minissérie documental narra saga de jornalista obcecado por investigação de uma série de crimes

O jornalista norte-americano Maury Terry passou anos de sua vida investigando uma série de assassinatos que aconteceu nos Estados Unidos e sua possível relação com uma seita satânica. Com uma mistura explosiva de obsessão, conspiração e mistério, a investigação acabou sendo contada no livro polêmico, The Ultimate Evil. A minissérie The Sons of Sam foi dirigida por Joshua Zeman e lançada na Netflix, em maio de 2021.  

The Sons of Sam é uma dessas minisséries intrigantes que você precisa assistir do início ao final, já que a cada episódio, novas informações são dadas e o telespectador é levado a tirar diferentes conclusões a cada minuto. Porém, é necessário comentar que da mesma maneira que a investigação e o livro de Maury Terry levantaram dúvidas sobre a maneira que os fatos foram conectados, como uma tentativa de tornar um caso ordinário em algo tão extraordinário e eletrizante quanto uma obra de ficção, em alguns momentos, o mesmo acontece com a produção cinematográfica.

O viés tem um peso muito grande na relação que o telespectador vai construir com a série documental. Para quem adora uma teoria da conspiração com uma pegada mais sombria, Maury Terry serve um prato gostoso até demais, daqueles que te dá vontade de repetir mesmo sabendo que os ingredientes e o modo de preparo são suspeitos. 

Porém, o que os depoimentos de outros profissionais e pessoas próximas apontam é que a credibilidade foi colocada de lado, a partir do momento que o jornalista se envolveu muito com o assunto e quis desesperadamente provar que sua história merecia mais atenção da sociedade e de que a polícia de New York teria deixado passar pistar que inocentaram sobre o caso do Filho do Sam, que também ficou conhecido pela mídia norte-americana como .44 Caliber Killer (arma utilizada nos crimes).

O filme documental de Joshua Zeman segue a perspectiva de Maury Terry, o que acaba tornando uma espécie de homenagem ao jornalista, bem como meio de aumentar o interesse pela compra e leitura da edição recente do livro The Ultimate Evil. republicada em abril de 2021 pela editora independente norte-americana Quirk Books. 

Entre erros e acertos cometidos pelo jornalista, fica claro o quanto ele subestimou o poder de manipulação de um assassino em série e ignorou o fato de que muitos deles adoram a atenção da mídia, aumentando a sensação de poder conforme espalham o medo na sociedade. O assassino David Berkowitz mudou tanto suas versões, que é impossível não se perguntar se ele não estava se divertindo com a atenção que Maury Terry deu aos seus assassinatos, enquanto a própria polícia já havia encerrado o caso e muitas pessoas seguido em frente.

Não há dúvidas de que parte do medo de Maury Terry seja real e que existem inúmeros casos criminais (não necessariamente assassinatos) relacionados às seitas e que são silenciados por seus membros, do mesmo modo que acontece dentro e fora de grupos religiosos tradicionais. Além de aumentar a descrença sobre o trabalho da polícia nova-iorquina e dos outros jornalistas que também não compraram as ideias de Maury Terry, o jornalista não só deu muito holofote para David Berkowitz, como alimentou um hoax com tanto potencial lucrativo, como Horror em Amityville e alguns dos casos duvidosos investigados por Ed e Lorraine Warren, histórias vendidas como baseadas em acontecimentos reais.

Com tantas mentiras e versões de David Berkowitz, independente de crença, creio que fica óbvio que nenhum demônio teria mandado matar aquelas vítimas. O que ficou de dúvida no ar foram sobre suas motivações. As cartas enviadas por ele, se lidas no sentido literal, mostram uma personalidade que flerta com o ocultismo, mas se for ler as entrelinhas, dá para perceber a sua crise de identidade e forte sensação de desencaixe na sociedade: “Olá, das sarjetas de N.Y.C. que estão cheias de merda de cachorro, vômito, vinho estragado, urina e sangue”.

Um fato que foi deixado fora da minissérie documental e faria muita diferença foi de que a quantidade de ofertas de editoras querendo contar a história de David Berkowitz fez com que o Estado de New York aprovasse uma lei com o nome do caso, impedindo que criminosos lucrassem com a publicidade de seus crimes, o que seria ofensivo e injusto com as famílias das vítimas.

Levando em conta que o assassino ainda está vivo e o interesse público, a minissérie documental teria ficado mais interessante se tivessem entrevistado criminologistas e profissionais de saúde mental para comentar sobre essas tentativas de manipulação que assassinos cometem e como muitos caem nessas armadilhas. 

A minissérie The Sons of Sam conquista o telespectador desde a abertura musical (Season of the Witch) e reforça as visões de Maury Terry sobre o caso, mas em entrevista ao The Guardian, o próprio diretor Joshua Zeman afirmou que a produção cinematográfica servia como um alerta para as pessoas que caem nas tocas de coelho (ficam presas nas obsessões e teorias de conspiração) e não conseguem sair de lá.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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