Pular para o conteúdo principal

Destaques

Dias de silêncio

Nos dias de silêncio estava dividido entre a fadiga e a ansiedade. Amava escrever, mas sentia como se não tivesse energia suficiente. Não poderia negar: gostava da sensação de estudar. Porém, os conteúdos difíceis eram como pedras: sabia que para algumas coisas precisava de um tempo a mais.  Entre aulas mais calmas, intermediárias e complexas, tentava fazer o melhor possível para aprender, sem se comparar com os outros, sabendo que cada um era único e todos tinham suas facilidades e dificuldades. A verdade era que mesmo coisas que gostávamos poderiam nos deixar cansados e tínhamos que tomar cuidado para não entrar em estado de esgotamento. Estava fazendo o possível para deixar a rotina equilibrada, de forma que não tivesse mais sobrecarga mental. O excesso de estudo poderia ser pior do que não estudar. Escrevia para registrar como os dias estavam sendo. Escrevia para matar a saudade de escrever. Escrevia para estudar. Escrevia. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Auto...

Sobre celulares e amores líquidos


Em tempos pós-modernos o amor pelos objetos é tão real quanto o sentido entre os próprios humanos. Incertezas e medos infiltram-se nos nossos cotidianos, desde a dúvida mais banal até as mais complexas, isto é, para aqueles que ainda pensam e preferem seguir a sua própria voz. Caso contrário, concordar com tudo, sorrir e acenar ainda é a melhor opção.

Vive-se o hoje como um dia de sol, e o amanhã como um dia nublado. A neblina do desconhecido toma conta dos pensamentos. Não conseguia deixar de pensar em como era difícil para as pessoas se comprometerem com algo nos dias de hoje. Contratos de longo prazo são assustadores, a não ser que possibilitem a aquisição de novos produtos (leia-se: relacionamentos).

Chega a ser meio idiota comparar um relacionamento a um celular, mas é como observo que esse laço tem sido tratado na atualidade. Começa no momento em que aquele aparelho atraente é visto na vitrine. Você ainda não sabe quais são as funcionalidades dele, mas sabe de cara que ele é moderno e bonito. Se ele for "conhecido", pode ser que isto pese bastante na escolha.

Depois de tentar se convencer porque você merece comprar aquele aparelho, chega a hora de escolher qual será a forma do pagamento e o principal, qual será o plano escolhido. Quando se trata de relacionamentos, este mesmo pagamento é feito em forma de afeto. Há os que preferem pagar à vista o valor total e os que parcelam de acordo com a quantidade que sentem mais confortáveis.

Os planos que duravam um ano, hoje são impensáveis. Os indivíduos sentem-se presos no contrato, assim como nos relacionamentos. A sensação de que algo novo, melhor e mais bonito chegará em breve é constante. Por que então se prender?

"Amor líquido" é o termo utilizado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman relacionando as relações humanas à liquidez. Segundo o sociólogo, essas transformações do consumo de produtos e informações foram incorporadas nos relacionamentos. No ensaio escrito por Gioconda Bordon à respeito da obra de Bauman, a autora comenta: "Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, e, no entanto, nunca os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter o rumo da relação".

Cada vez mais confeccionados de forma a não durarem muito, o ritmo de procura e consumo de produtos satisfatórios também é visto na procura por parceiros. Relacionamentos começam e terminam num piscar de olhos. Nada como um fechar de janelas no computador para que um novo parceiro possa entrar nessa brincadeira de "esconde-esconde amoroso".

Leia também o ensaio "A fragilidade dos laços humanos", de Gioconda Bordon
Relacionamentos em tempos pós-modernos

Amores de plástico

Sobre Amores e Calças Jeans

Amor Líquido - Livro aborda a fragilidade dos laços humanos

Mais lidas da semana