segunda-feira, 16 de junho de 2014

Recarregando as energias: Literatura ao Ar Livre

Tirei a tarde para me reconectar comigo mesmo, algo que eu faço no mínimo uma vez por mês e recomendo a qualquer pessoa que deseja recarregar suas energias. Peguei minha mochila e coloquei dentro dela um manuscrito de romance, um livro, uma revista, um caderno e, é claro, a caneta, sem a qual não seria possível escrever este texto.

Pôr-do-sol no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande (MS).
Foto: Ben Oliveira.

Todo mundo tem ou deveria ter um lugar para se refugiar do mundo, onde os problemas ficam para trás a partir do minuto em que você atravessa o portão. Meu lugar mágico é o Parque das Nações Indígenas, no qual posso me desligar dos conflitos e desejos que insistem em fervilhar, diariamente, na minha mente macaca.

Fecho os olhos e sinto aquele cheiro de verde, de natureza. O som das aves cantando se contrasta com os barulhos da construção do Aquário do Pantanal, o suposto maior aquário de água doce do mundo. Já perdi a conta de quantas vezes vi o pôr-do-sol aqui, que fica mais lindo ainda se você estiver próximo à lagoa. Os tons rosas e alaranjados se escondem lentamente, mas cada segundo do seu show se torna inesquecível.

Olho para trás e uma família se diverte com as flores rosas caindo da árvore, uma chuva de sensações. Risos, sorrisos, olhos brilhantes, fotografias, ninguém quer perder a mágica acontecendo, embora nem todos saibam reconhecê-la. É preciso paciência para ver a transformação da natureza com os seus próprios olhos, sentir as delicadas flores caindo sobre você, como se fossem presentes, cobrindo a grama de rosa.

Sempre que observo a magia do parque, meu instinto me diz para fotografá-la. No entanto, minha única câmera no momento era a minha visão e por mais que eu tentasse usar as palavras para pintar essa paisagem, jamais conseguiria. Eu estava lá para viver o aqui e o agora – sem pensar no passado ou me preocupar com o futuro. É difícil quando você tenta não fazer essas coisas, mas natural quando você deixa tudo seguir o seu próprio ritmo. Até mesmo o barulho da construção dentro do parque não incomoda tanto.

A lagoa está rosada, refletindo os prédios e casas por trás do parque. Uma cena que faz as pessoas pararem para observar e fotografar, alguns com a mente, outros com seus aparelhos. Aliás, com essas belas paisagens, o lugar está sempre lotado de fotógrafos profissionais ou amadores, querendo emprestar um pouco desta magia encantadora.

Horas se passaram desde que eu cheguei. Quanto tempo se passou? Não saberia informar, já que saí de casa sem nenhum aparelho eletrônico e o máximo de tecnologia que levei comigo foram os favoritos dos escritores: livro, caneta e papel. Parece meio idiota tentar se desligar e o tempo inteiro estar preocupado com as horas ou ficar olhando se tem alguém tentando falar com você. Não precisava daquilo, aquele era um momento só meu.

Há algo incrível em visitar um local e ele nunca estar igual, como se tivesse vida própria – e tem! Centenas de aves, capivaras, humanos e demais animais passam pelo parque diariamente, embora o único que possa poluir ou prejudicá-lo de alguma forma seja o homem.

Antes de encontrar um banco para me sentar, andei um pouco pelo parque. Um homem de meia-idade caminhava, ou melhor, tentava correr, aproveitando a luz solar para se bronzear e manter o corpo em forma. Encostei na ponte e vi capivaras filhotes e adultas tomando banho na lagoa. Dizem que a natureza é a melhor professora. Naquele instante, aprendi com aqueles roedores a beleza da simplicidade – não é preciso muito para ser feliz ou relaxar. As capivaras nadavam lentamente e giravam, se refrescando, como se ninguém as observassem. Não é preciso andar muito para encontrá-las, elas estão por todos os cantos do parque. Gringos se maravilhavam e paravam para fotografá-las. O que era comum para muitas pessoas da cidade, parecia uma obra de arte para eles.

Sentei no primeiro banco da tarde. Fiquei em frente à lagoa e aproveitei a tranquilidade para ler e revisar o meu romance. É maravilhoso como a atividade fluiu com naturalidade, enquanto em casa lidaria com uma série de distrações. Basta um pouco de distanciamento da internet para perceber o quanto, muitas vezes, ela atrapalha mais do que ajuda. Revisei alguns capítulos, até que uma pequena aranha marrom se aproximou de mim e entendi que estava na hora de eu trocar de lugar. Encarei a minúscula e assustadora criatura por uns instantes, para ver o que ela faria e parecia mesmo que ela queria o banco para ela.

Andei ao redor da lagoa e me sentei em outro banco, sob uma árvore pequena, mas que fazia sombra o suficiente para me proteger do sol. Continuei a revisar o meu texto e decidi retomar a leitura de A Vida, O Universo e Tudo Mais, do escritor Douglas Adams. Li com calma, no ritmo que a natureza me permitia, entre pássaros e insetos que me visitavam. Uma mosca, uma abelha e outros insetos que eu não faço ideia de suas nomenclaturas pousaram  sobre a página do livro e pareciam atraídos por ela. Perguntei-me se eles também gostavam do cheiro de livro novo, como eu. Tirei os tênis, cruzei as pernas, respirei com calma e viajei na história, me tornei um mochileiro das galáxias. Após ler o suficiente, aproveitei para andar novamente pelo parque.

Caminhei e observei cenas que gostaria de ter registrado, mas que estão vivas agora em algum lugar da minha memória. Sem relógio para me preocupar com o horário em que iria para casa, deixei me guiar pela iluminação do sol.

Escrevi até não conseguir mais enxergar minhas próprias palavras. Respirei, dei uma última olhada nas árvores ao meu redor e decidi que estava na hora de partir. Coloquei minha mochila nas costas e andei até minha casa. Mesmo com o peso dos livros, me senti mais leve.

Despedi-me do parque com um até logo, sabendo que em breve retornaria para mais uma sessão prazerosa de literatura ao ar livre.

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