quinta-feira, 24 de julho de 2014

Entrevista: Escritor Ricardo Bellissimo fala sobre seus romances ácidos e seu processo criativo

O entrevistado da semana é o escritor, jornalista e historiador, Ricardo Bellissimo que encanta seus leitores com o seu estilo marcado pela linguagem ácida e exposição, sem hipocrisias, de conflitos psicológicos e sociais . Em seus livros, os personagens são tão palpáveis e, muitas vezes, mais corajosos do que as pessoas de carne e osso para revelarem seus pensamentos sinceros e sombrios. Um convite ao leitor para uma viagem, não só pelas páginas dos seus romances, mas para a mente e alma, pelo íntimo do ser humano.
Escritor Ricardo Bellissimo. Foto: Divulgação.

Autor da novela “Libido Siamesa” e dos romances “Sufoco”, “Sombras e Nefastos” e “Negro Amor”, os quais, com exceção do primeiro livro, eu tive a oportunidade de ler e resenhar aqui para o blog. Em cada obra, Ricardo Bellissimo dá uma aula a escritores iniciantes sobre a importância de construir personagens com desejos e personalidades próprias, sem medo da moralidade. À medida que as histórias se desenvolvem, o escritor prende os leitores nos seus fios e injeta nele uma dose de catarse, digna de transformar qualquer um.

Na entrevista, respondida via e-mail, o autor falou sobre o seu processo criativo na construção das narrativas de seus livros, seu próximo projeto literário, o mercado editorial e deixou um conselho para escritores iniciantes.

Confira abaixo a entrevista com o escritor Ricardo Bellissimo: 

Ben Oliveira: Ricardo Bellissimo é seu Pseudônimo ou Nome?

Ricardo Bellissimo: É nome mesmo. Parece até piada, e tenho, inclusive, que tomar cuidado com o sobrenome de quem eu possa eventualmente me casar de papel passado. Imagine alguém com o sobrenome Rego ou Pinto? Pinto Bellissimo ia ser uma responsabilidade e tanto na hora de preencher qualquer formulário. Quiçá, Rego!

Ben Oliveira: Como a sua experiência como jornalista influenciou na hora de escrever seus romances?

Ricardo Bellissimo: Creio que tanto a literatura, como o jornalismo, necessitam de um olhar profundamente acurado sobre a sociedade e o mundo em que se está inserido. Sem esse senso humanista de observação, não é possível criar nenhum componente psicológico convincente a fim de se estruturar uma personagem. Uma história minimamente crível.

O jornalismo, por sua vez, possui a doutrina da concisão. Unir, portanto, um ao outro, é uma fórmula que também muito me interessa a fim de elaborar uma narrativa.

"O suspense, por excelência, exige um domínio psicológico do mistério a ser inoculado no leitor em doses homeopáticas ao longo do enredo". 

Ben Oliveira: Em 1998, a sua novela Libido Siamesa foi vencedora do Prêmio I Festival de Literatura Universitária. Qual era a história da novela?

Ricardo Bellissimo: Criei um caso fictício de duas irmãs siamesas que, além de todas as dificuldades inerentes à deficiência que as garotas por isso já enfrentam, ambas ainda possuem opções sexuais distintas. Enquanto o inconsciente de uma está lastreado a desejos homoeróticos, a outra vivencia os primeiros êxtases de sua heterossexualidade. Isto, por si só, já cria uma tensão dramática incomum. E bizarrices, de um modo geral, sempre me enternecem.

Este caso de xipofagia também me serviu como uma grande metáfora para mostrar como o Brasil ainda está muito pouco preparado para tratar casos mais sérios de má formação fetal, bem como promover qualquer assistência minimamente adequada à progenitora.

Ben Oliveira: Como foi participar do prêmio literário e vencê-lo?

Ricardo Bellissimo: Sempre há aquela sensação de “Será que é comigo mesmo? Não houve algum engano”, quando te ligam e falam que você recebeu o primeiro lugar em um concurso literário. É sempre muito gratificante ter o seu trabalho reconhecido, principalmente quando este é feito com dedicação, honestidade, e muito suor dos neurônios.

Ben Oliveira: Há possibilidade de a novela ser republicada?

Ricardo Bellissimo: Muitas pessoas ainda me perguntam onde podem encontrar a novela Libido Siamesa, mas a editora Cone Sul, que na época era uma editora do Rio Grande do Sul, encerrou as suas atividades. Creio que ainda é possível achar um ou outro exemplar pela internet ou em algum sebo literário. Futuramente, é possível também que se faça uma nova reedição desta obra.

Ben Oliveira: Seu primeiro romance, Sombras e Nefastos, foi todo escrito em forma de cartas. Por que optou pelo romance epistolar? 

Ricardo Bellissimo: Foi um desafio narrativo a que optei para poder assim esmiuçar, com contundência, a intimidade mais secreta e igualmente ressentida dos personagens. Afinal, uma carta pode conter as confissões mais obscuras e veladas, diferentemente de um email ou de uma mensagem inbox que podem, algum dia, até ser rastreados por uma tarefa de inteligência policial. Se alguém queimar uma carta, não sobra nenhum prova material. Isto também muito me interessou na hora de escrever Sombras e Nefastos. Hoje em dia tudo pode ser rastreado, Edward Snowden (ex-funcionário da CIA que revelou a existência de programas de vigilância e espionagem mundial) sabe disso melhor do que ninguém.

Ben Oliveira: Quais foram as vantagens e desvantagens do gênero escolhido na narrativa?

Ricardo Bellissimo: A maior vantagem foi ter explorado um gênero ainda muito pouco valorizado em nosso país, mas como o livro obteve uma boa repercussão, muitas pessoas acabaram percebendo que é puro preconceito ignorar um romance construído por meio de cartas.

A desvantagem fica a cargo do leitor em quebrar ou não o seu preconceito em relação a obras epistolares.  

Ben Oliveira: Apesar desta forma de narrativa não ser tão comum nos dias atuais, Sombras e Nefastos prende o leitor da primeira até a última página. Qual é a importância de dominar a técnica de suspense para não revelar demais ao leitor antes da hora?

Ricardo Bellissimo: O suspense, por excelência, exige um domínio psicológico do mistério a ser inoculado no leitor em doses homeopáticas ao longo do enredo. O mistério, afinal, está na base das grandes questões filosóficas, como a origem da vida, a morte, o cosmos. E, por consequência, no subjetivismo com que cada ser humano percebe-se a si mesmo e aos outros. Isso, por sua vez, faz um leitor trilhar por uma narrativa de suspense através de suas próprias sendas psicológicas, que assim o predispõe a transformar qualquer mistério, do amor aos seus próprios medos, em um aprendizado que, de alguma forma, possibilite o seu aprimoramento intelectual, mas, sobretudo, espiritual.

"... Um livro sem alma não se sustenta, não sobrevive. Não pode comover e, portanto, não pode criar nenhum laço minimamente catártico com o leitor"     

Ben Oliveira: De onde surgiu a ideia de desenvolver o seu estilo marcado por linguagem ácida e crítica às hipocrisias sociais?

Ricardo Bellissimo: Em uma sociedade tão injusta como a brasileira, onde, recentemente, um cidadão morreu na porta de um hospital público sem atendimento e com um candidato a presidente que favorece uma pista de pouso nas terras de um familiar – só para citar apenas dois exemplos –, uma contundência narrativa é, sobremaneira, uma tentativa de se fazer um mínimo de justiça com a própria pena. Daí que vem a notória frase de Machado de Assis, fazer valer a pena. Uma espécie, portanto, de acerto de contas com tamanho descalabro social.


Ben Oliveira: O livro Sufoco aborda bem a realidade da periferia de São Paulo e os contrastes sociais. Como foi o processo de pesquisa para o romance?

Ricardo Bellissimo: Numa cidade como São Paulo, você se defronta o tempo todo com uma miscelânea de bairros e zonas cuja discrepância social é gritante. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde esta divisão muitas vezes se restringe aos morros, em São Paulo você absorve continuamente essas desigualdades, sejam elas de cunho econômico ou cultural. Tais desigualdades jamais poderiam compor um universo paralelo, imiscível. As pessoas precisam aprender a conversar com todo tipo de gente, e parar, de uma vez por todas, de criar tantas ilusões de distanciamento, cada vez mais cercadas em seus condomínios eletrificados e shopping centers. Uma sociedade que evita se comunicar com os mais desfavorecidos, e vice-versa, está apenas cavando a cova que rege os princípios mais básicos de respeito mútuo. E, isto, é a morte para a solidificação de qualquer instituição que zele pela garantia dos direitos primordiais de uma democracia, como liberdade igualdade e fraternidade.

Ben Oliveira: Sufoco traz diversos personagens com nuances que o fazem parecer pessoas de carne e osso. Como é o seu processo de criação de personagens? 

Ricardo Bellissimo: Antes de tudo, o escritor precisa observar com muita argúcia e complacência os outros. E o mais importante: sem qualquer tipo de julgamento. Procurar, tão somente, absorver o que possa emanar da alma e do instinto de um ser humano. Observar, sobretudo, a natureza psicológica de seus gestos, desde um olhar de encantamento ao mais abjeto olhar de desprezo. E, por meio de um filtro pessoal, como se o escritor assumisse a função de um para-raios social, disseminar a devida compaixão pelo outro ao acompanhar, com profunda cumplicidade, a saga de um personagem.
Creio, ainda, que a importância da educação se dá justamente sob esse olhar mais compassivo em relação ao outro. Daí a importância da leitura, da catarse, para se disseminar uma empatia social mais sadia. E pragmática.

Ben Oliveira: Os diálogos humorísticos e realistas em Sufoco aliviam um pouco a tensão da narrativa. Como foi escrever esses diálogos? De onde tirou inspiração para escrevê-los?

Ricardo Bellissimo: Venho de uma família que sempre zelou pela importância vital do humor para saber lidar com as adversidades da vida. Isto, no fundo, sempre foi a minha grande inspiração. O humor é uma arma poderosa, e incomparável, contra o pessimismo e arrogância dos outros.

Ben Oliveira: Negro Amor traz uma história forte, com direito a socos no estômago e na alma do leitor. Como foi escrever o livro? 

Ricardo Bellissimo: Foi um processo longo e intenso. Quis criar uma história em que a protagonista percorre o caminho inverso de quem busca o amor romântico de forma convencional. A personagem acredita que o amor, antes de tudo, vem da lama de seus instintos mais obscuros e jamais de campos floridos entre outros tantos sorrisos dissimulados. É preciso saborear a margarina putrefata que os comerciais sempre dão um jeitinho de esconder.

Ben Oliveira: Diferente dos outros dois romances narrados em terceira pessoa, Negro Amor foi narrado em primeira pessoa, e através do fluxo de consciência faz o leitor viajar pelos pensamentos e emoções da protagonista. Como foi o processo de criação da protagonista?

Ricardo Bellissimo: A protagonista é uma legista, e esta profissão, decididamente, serviu-me como grande metáfora para poder criar um diálogo constante entre a vida e a morte. Um dissecador de cadáveres, afinal, trabalha diariamente com o aspecto terminal da vida. Esta polaridade, sobretudo num personagem que anseia amar intensamente e sem hipocrisias, propulsiona uma motivação aguerrida, quase heroica, ao conscientizar o leitor de que não se deve perder tempo na vida com coisas desimportantes. Sobretudo falsidades.

Ben Oliveira: No ato da escrita de Negro Amor sua catarse foi tão intensa quanto à sentida pelo leitor?

Ricardo Bellissimo: Creio que a catarse maior se restringe ao aprendizado de que, mais uma vez, não devemos perder tempo com coisas nem pessoas cuja sintonia aos nossos anseios não objetive um aprendizado e respeito recíprocos. Ganha-se muito quando encontramos pessoas com quem podemos praticar uma troca efetiva e afetiva de ideias e emoções.

Ben Oliveira: Negro Amor aborda o lado obscuro e sem hipocrisias dos relacionamentos. Qual é a mensagem por trás do romance?

Ricardo Bellissimo: Quem se perde em hipocrisias sociais, está trilhando o caminho inverso de sua própria felicidade. O tempo terreno jamais volta, e a pior das tormentas para quem se paramenta com máscaras sociais é que um dia ela vai ressentir pelo fato de que poderia ter feito as coisas de um modo diferente; mas, infelizmente, aí já pode ser tarde demais. Quem souber manusear adequadamente a sinceridade no trato social, também reconhecerá, naturalmente, quem merece ou não estar ao seu lado. Por isso, a sinceridade é outro princípio fundamental que deve ser ensinado, e desde muito cedo, nas escolas.

Ben Oliveira: Seus romances dariam belas adaptações cinematográficas. Sufoco, por exemplo, traz muitos conflitos presentes na sociedade brasileira. Sombras e Nefastos e Negro Amor dariam ótimos thrillers. Há possibilidade de os livros serem adaptados ao cinema?

Ricardo Bellissimo: Já houve interesse por parte de alguns leitores estudantes de cinema a fim de adaptar, para as telas, os meus livros, especialmente Sufoco. Infelizmente, o cinema ainda é uma arte que exige um alto custo financeiro para sair do papel até virar um filme. Este é o grande empecilho para muitos outros livros brilhantes também se tornarem filmes.

"É preciso saborear a margarina putrefata que os comerciais sempre dão um jeitinho de esconder"

Ben Oliveira: Quais são seus próximos projetos literários?

Ricardo Bellissimo: Devo lançar em breve um livro chamado Sangrantes, uma espécie de road movie tropical e bem úmido, narrando uma história contundente de amor, de abandono, de reflexão, loucura e paixão. E também de profundo desprendimento das coisas materiais.  

Ben Oliveira: Como você avalia o mercado editorial e o público leitor atual?

Ricardo Bellissimo: O mercado editorial precisa, de uma vez por todas, se entronizar a realidade brasileira e baixar radicalmente o custo do livro para o consumidor final. É necessário, ainda, efetivar toda uma logística governamental que possibilite o fomento do leitor brasileiro, desde a redução de impostos para gráficas e indústrias que produzem o papel-livro (de reflorestamento), bem como estimular a criação de novas e pequenas editoras.

Dizem que o brasileiro não gosta de ler, e isto não é verdade. O preço dos livros é o fator que mais inibe a qualificação do público leitor. Só para citar um exemplo, todo ano ocorre uma feira de livros na USP e ali são vendidos exemplares com mais de 50% de desconto do preço original de capa, e não sobra praticamente um exemplar.    

Ben Oliveira: Quais autores são suas fontes de inspiração?

Ricardo Bellissimo: Aprecio em demasia a literatura brasileira, com escritores de primeiríssima grandeza como Chico Buarque, que soube brilhantemente trazer todo o seu lirismo musical para a narrativa de seus livros. Há muitos outros autores que admiro, como Daniel Galera, Rubem Fonseca, a irreverência deleitosa do eterno João Ubalbo Ribeiro, bem como a do colombiano Efraim Medina Reys, entre muitos outros.

Ben Oliveira: Qual conselho sobre escrita deixaria para escritores iniciantes?

Ricardo Bellissimo: A minha mensagem principal seria: não tema a moralidade. Em outras palavras, não tenha nenhuma moral ao escrever. Se um escritor se preocupar com o pensamento o que vão achar de mim por ter escrito isto ou aquilo, ele jamais poderá escrever uma obra com alma. E um livro sem alma não se sustenta, não sobrevive. Não pode comover e, portanto, não pode criar nenhum laço minimamente catártico com o leitor.

"É nos pesadelos, afinal, onde estão soterrados os nossos designios mais profundos" – trecho de Negro Amor

Ben Oliveira: Onde é possível encontrar seus livros?

Ricardo Bellissimo: Em livrarias como a Cultura, entre outras, além de livrarias virtuais pela Internet, que inclusive permite ao leitor a possibilidade de encontrar o melhor preço.

2 comentários:

  1. Conheci o trabalho do Bellissimo através de uma das suas resenhas e ainda essa semana finalmente vou pegar um de seus livros para a leitura. Agora, com essa entrevista incrível, posso dizer que a expectativa apenas aumentou.
    Apesar de tantas coisas interessantes citadas por vocês, acho que o que mais chama a atenção é o tema dessa novela. Não sabia do que se tratava até então e acho que é um tema muito interessante. Realmente espero que seja republicada e o quanto antes.
    Quando divulguei a parceria, alguns leitores gostaram do "apelido" Bellissimo. O que gostei mesmo foi da resposta dele.

    Abraços,
    Ricardo - www.overshockblog.com.br

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    Respostas
    1. Boa noite, Ricardo! Fico muito feliz que tenha gostado da resenha e da entrevista. Tenho certeza de que sua leitura será prazerosa! Também fiquei interessado na novela. Espero que seja republicada!
      Muito obrigado pela visita e comentário!
      Volte sempre!!

      Abraços

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Obrigado pelo comentário. Volte sempre!

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