sábado, 11 de março de 2017

Resenha: A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário – Denis Thériault

A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário (Facteur émotif / The peculiar life of a lonely postman) é um romance canadense escrito por Denis Thériault, publicado no Brasil pela Editora Casa da Palavra, com tradução de Daniela P. B. Dias, em 2015. O livro explora a vida de Bilodo, um carteiro com uma secreta fascinação: abrir os envelopes e ler os conteúdos das cartas escritas pelos remetentes.


Bilodo é um solitário que preenche os seus dias percorrendo a cidade e entregando as encomendas. Com pouquíssimos amigos, ele se apega às cartas – como os bons leitores que são fissurados por livros e estão sempre precisando de mais uma dose. Longe de se interessar por qualquer carta; Bilodo gosta de cartas pessoais. E é no meio desta guilty pleasure, que o protagonista acaba se encantando por uma deliciosa correspondência em haicais.

“Bilodo vivia vidas alheias. Em vez da monotonia da existência real, preferia o mundo infinitamente mais colorido e emocionante do seu seriado particular. E, de todas as cartas clandestinas que compunham esse mundinho virtual fascinante, nenhuma mexia mais com ele ou o encantava mais do que as enviadas por Ségolène” – Denis Thériault,  A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário

Imerso no prazer de viver e imaginar a vida do outro – que amante de livros poderia julgá-lo? –, Bilodo se apaixona por uma professora chamada Ségolène. O interesse surgiu, é claro, da troca de cartas entre a mulher de Guadalupe e o poeta, Gaston Grandpré. Bilodo sente inveja do homem, de ter alguém que lhe escrevesse palavras que provocassem as mesmas reações que as da caribenha.

O romance se passa em Montreal, Quebec, local em que o autor do livro vive atualmente. Com uma linguagem bem direta, a história é bem enxuta, como um bonsai, mas não deixa de ser envolvente. Durante a leitura, nos sentimos como o próprio Bilodo bisbilhotando histórias. Me senti ainda mais conectado e instigado para saber o que acontecia, quando o protagonista foi se aprofundando no universo do haicai e também do tanka – uma forma mais antiga de poesia japonesa.

“A arte do haicai era a arte de captar um instantâneo fotográfico, um detalhe. Os versos podiam falar sobre um acontecimento na vida de alguém, uma lembrança, um sonho, mas o haicai era, sobretudo, um poema concreto, feito para instigar os sentidos, e não as ideias” – Denis Thériault,  A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário

Os haicais são formas poéticas tão incomuns dentro de romances, que fiquei maravilhado quando percebi que seriam peça-chave da narrativa, principalmente por sua relação com a escrita zen. Para quem é introspectivo, não é tão difícil se identificar com Bilodo. Os contatos mais próximos do homem são com um colega de trabalho, o qual ele considera melhor amigo, apesar de não terem nada em comum e com uma garçonete que sente um carinho por ele.


Quando os caminhos de Bilodo e Ségolène parecem sem confluência, a trama se movimenta com intensidade. O protagonista precisa fazer uma escolha diante de um infortúnio. A vida perde a graça sem as cartas de Ségolène. Voltar para sua velha rotina ou se aventura em sua própria jornada de criação poética?

“Ele escreveu, tentando conjurar a cooperação das palavras, lutando para agarrá-las no ar antes que se dispersassem, para capturá-las como borboletas na rede da sua página, e espetá-las no papel” – Denis Thériault,  A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário

Denis Thériault nos joga em um redemoinho. Quanto mais nos aproximamos do fim, mais ficamos angustiados para saber qual será o destino dos sentimentos que Bilodo nutre por Ségolène. Concluí a leitura com aquela vontade de reler o livro e me perder nos detalhes das poesias. Uma história redentora sobre paixões, palavras e círculos.


Sobre o autor – Nascido na costa norte do Golfo de St. Lawrence, Quebec, Denis Thériault tem licenciatura em psicologia, é um roteirista premiado e vive com sua família em Montreal. Seu primeiro romance, L’iguane, foi publicado com grande aclamação da crítica e ganhou os prêmios literários France-Québec 2001, Anne-Hebert 2002 e Odyssée 2002. A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário é o seu segundo romance.

Sobre a editora – Trabalho, criatividade, apuro e amor pelos livros. Foi com essa aposta que a Casa da Palavra se consolidou no mercado editorial, sem nunca perder de vista a vocação primeira de valorizar a história e a cultura brasileiras e, ao mesmo tempo, atender as expectativas do leitor com produtos que se diferenciam pelo rigor estético e pela qualidade de conteúdo.

Ao completar 15 anos de existência, a Casa da Palavra se associou à editora LeYa, que passou a cuidar, a partir de junho de 2011, de seus processos de distribuição, marketing e de sua estratégia de vendas para que a produção editorial pudesse ser ampliada e ganhasse mais visibilidade nos pontos de venda. Uma parceria para continuar, como sempre, mantendo o livro em primeiro lugar. A Casa da Palavra quer ver reforçado, cada vez mais, o prazer da leitura e o valor da palavra no avanço do saber.

E você, já leu A Vida Peculiar de um Carteiro Solitário? Ficou curioso?

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