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Destaques

Resenha: O Sol Ainda Brilha – Anthony Ray Hinton

Liberdade é uma palavra duvidosa, mas talvez faça mais sentido quando somos mais privados dela ainda. No livro O Sol Ainda Brilha (The Sun Does Shine), escrito por Anthony Ray Hinton com Lara Love Hardin, o leitor é apresentado à história trágica de um homem que passou 30 anos no corredor da morte por assassinatos que não cometeu. A obra foi publicada no Brasil pela Editora Vestígio, em 2019, com tradução de Luis Reyes Gil.


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Quem poderá dizer que é realmente livre? Ou que acredita que a justiça sempre acerta? O Sol Ainda Brilha pode servir como um conto caucionário sobre o sistema judiciário, especialmente em regiões com penas mais severas. O autor nos faz refletir sobre a existência de outras pessoas inocentes que também foram mandadas para o corredor da morte.

“Os sons à noite davam a impressão de se estar no meio de um filme de horror – criaturas rastejando, homens gemendo, gritando ou…

Passarinha: Livro sobre garota autista e seu pai lidando com o luto

Uma garota pré-adolescente no espectro autista (Síndrome de Asperger) chamada Caitlin perde o irmão em um tiroteio na escola e, além da dificuldade de entender e ser entendida pelos outros no colégio, ela tenta ajudar o pai a superar a morte de Devon. Assim é a trama do livro Passarinha (Mockingbird), da escritora Kathryn Erskine, publicado no Brasil pela Editora Valentina, em 2013.


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Acredito muito no poder da literatura de entreter, informar e conscientizar sobre temas que nem sempre são abordados de forma suficiente na mídia ou que não são tão humanizados – a ficção ajuda com a empatia. Livros como Passarinha, A Diferença Invisível e Em Algum Lugar nas Estrelas deveriam ser trabalhados em salas de aula, levando em conta questões que vão além da literatura e ajudam na reflexão sobre inclusão social, amizade e relacionamentos de pessoas no espectro autista.

Narrado em primeira pessoa pela Caitlin, o livro Passarinha toca em dois temas interessantes: o luto de quem perdeu alguém em um dos massacres em escolas dos Estados Unidos e a vida da pessoa com transtorno do espectro autista – lembrando que na época da publicação original do romance, em 2010, a Síndrome de Asperger era considera uma condição relacionada, mas distinta do autismo; por isso há um momento de estranhamento quando a personagem fica irritada quando a chamam de autista e ela age até de forma preconceituosa, mesmo sem perceber.

“Olho para as paredes e pouca coisa mudou além da cara zangada no Quadro de Expressões Faciais que agora tem um bigode. Eu sei disso porque já olhei para aquele quadro mais ou menos um milhão de vezes tentando descobrir que emoção corresponde a cada cara. Não sou muito boa nisso. Tenho que usar o quadro porque quando olho para rostos de verdade eu não Capto O Sentido. A Sra. Brook diz que as pessoas sentem muita dificuldade de me entender porque eu tenho Síndrome de Asperger e por isso tenho que me esforçar muito mais ainda para entendê-las e isso significa trabalhar as minhas emoções” – Kathryn Erskine, Passarinha

Uma coisa bem interessante de observar ao longo da leitura é a maneira que Caitlin é apegada às palavras, seja porque os livros e os dicionários a acalmam e fazem parte do seu interesse específico (hiperfoco) ou por causa da dificuldade de entender as palavras no sentido literal. Embora seja algo que é trabalhado ao longo da vida conforme aumenta o repertório, na infância fica mais evidente.

Embora não existam duas pessoas com Síndrome de Asperger iguais (tampouco dois autistas), o livro joga luz em algumas questões do comportamento, como a hipersinceridade e a dificuldade para mentir, mesmo quando a verdade pode machucar os outros; a importância de ter quem entenda as particularidades para ajudar na mediação e 'tradução', bem como minimizar os desentendimentos.


“EU DETESTO O RECREIO [...] estou cercada por uma gritaria estridente e tem luz demais e os cotovelos dos outros são pontudos e perigosos e é difícil respirar e eu sinto meu estômago muito, muito embrulhado. Fico só parada e passo os braços ao meu redor como um campo de força e aperto os olhos até quase fecharem para tentar trancar tudo do lado de fora. Não funciona” Kathryn Erskine, Passarinha


Depois de perceber o sofrimento do pai, junto com o apoio da orientadora, Caitlin tenta trabalhar as próprias emoções e se tornar mais consciente da necessidade dos outros. Por causa da dificuldade de imaginar o que os outros estão sentindo e da dificuldade com a regulação emocional, como outras pessoas no espectro autista, para Caitlin, é desafiador saber como agir em determinadas situações, o que pode dar a impressão aos outros que ela não tem empatia.


Do início ao final do livro, é possível acompanhar o desenvolvimento da personagem e como ela aprende a lidar com os desafios, ainda que o seu irmão não estivesse ali para ajudá-la. Amizade, novas experiências e com mais compreensão de si mesma e dos outros, Caitlin busca um desfecho para o pai e percebe a importância de processar os sentimentos não só para sua família, mas para toda comunidade que foi afetada pelo massacre.


“As vezes eu leio os mesmos livros uma vez atrás da outra. O bom dos livros é que as coisas do lado de dentro não mudam. As pessoas dizem que não se pode julgar um livro pela capa, mas isso não é verdade porque a capa diz exatamente o que tem dentro. E não importa quantas vezes você leia aquele livro as palavras e imagens não mudam. Você pode abrir e fechar os livros um milhão de vezes que eles continuam os mesmos. Têm a mesma aparência. Dizem as mesmas palavras. Os gráficos e ilustrações são das mesmas cores. Livros não são como pessoas. Livros são seguros” – Kathryn Erskine, Passarinha

Curiosidade: Kathryn Erskine escreveu o livro porque a filha dela é autista (Síndrome de Asperger) e ela gostaria que outras crianças e adultos a entendessem melhor. Embora a personagem não seja baseada em sua filha, ela se inspirou em alguns dos traços autísticos para a composição de Caitlin. Algumas das premiações do livro: Vencedor do National Book Award, 2010; Vencedor do International Reading Association Award, 2011; Vencedor do Crystal Kite Awarad, 2011; Vencedor do Southern Independent Booksellers Award 2011; Melhor Romance para Jovens da American Library Association's, 2011; Obra Notável para Crianças e Adolescentes, Capitol Choices, 2011; Vencedor do Dolly Gray Children's Literature Award, 2012.

Segundo o Skoob, a maior rede social para leitores do Brasil, o livro Passarinha já foi lido por mais de 3 mil usuários. Foi uma leitura bem elogiada por várias pessoas. Fiquei feliz em saber isso, especialmente porque a própria autora tinha como intenção levar um pouco de conscientização sobre Síndrome de Asperger. “Espero que os leitores sintam que, vendo o mundo pelos olhos de alguém, e realmente compreendendo aquela pessoa, muitos mal-entendidos e problemas podem ser evitados — mal-entendidos e problemas estes que também podem levar a uma frustração crescente e, às vezes, até à violência”, afirma Kathryn Erskine.


Texto da imagem: “Embora eu não achasse que iria gostar da empatia, ela é uma coisa assim que chega sem avisar e faz você sentir um calorzinho gostoso no Coração. Acho que não quero voltar para uma vida sem empatia” – Kathryn Erskine, Passarinha

Sobre a autora – Como residente do estado da Virgínia, Kathryn Erskine ficou profundamente abalada com o massacre da Virginia Tech University, em 2007. Na esteira da tragédia, Kathryn imaginou como poderia entrelaçar o tema da violência na juventude, seu impacto sobre a comunidade e as famílias, e o mundo de uma criança com necessidades especiais, numa tentativa de avaliar o quanto nossas vidas poderiam ser diferentes se compreendêssemos melhor uns aos outros. Ao escrever Passarinha, que narra a história de uma menina autista, ela própria penetrou nesse delicado universo, para, como Caitlin, nos oferecer algo bom e forte e bonito.

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*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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