terça-feira, 24 de outubro de 2017

Resenha: O Segredo do Best-Seller – Jodie Archer e Matthew L. Jockers

Será que o universo dos livros mais vendidos é tão aleatório como imaginamos? Ninguém sabe qual será o próximo sucesso do universo editorial – ou, pelo menos, quase ninguém –, mas estamos cada vez mais próximos do entendimento sobre como os leitores interagem com esses livros a ponto de torná-los envolventes e entrarem para as listas de livros best-sellers. Com a proposta de desvendar um pouco deste universo, os autores Jodie Archer e Matthew L. Jockers escreveram o livro O Segredo do Best-Seller (The Bestseller Code: Anatomy of the Blockbuster Novel), publicado no Brasil pela editora Astral Cultural, em 2017, com tradução de Regiane Winarski.


Ame ou odeie, livros best sellers ajudam a manter as editoras vivas e possibilitam a alguns escritores construírem suas carreiras contando histórias. Nunca como antes foram publicados tantos livros. Entre editoras tradicionais e escritores independentes, algumas obras acabam se destacando em vendas e entrando para listas, como a do The New York Times, da Amazon, entre outros jornais e livrarias. A ex-editora, pesquisadora e consultora de literatura e escritora Jodie Archer e o professor de inglês Matthew L. Jockers se reuniram para pesquisar o DNA dos best-sellers, independente do gênero.

Segundo os autores do estudo, o mercado não é tão incompreensível como as pessoas imaginam e existem características que ajudam a entender o que e por qual razão as pessoas estão lendo determinados livros. Um ponto bem ousado é o de que os algoritmos poderiam ajudar a descobrir quais serão os próximos best-sellers, sejam livros novos ou materiais que ainda não foram publicados. Algumas ideias do livro, como a de listas temáticas (muitas vezes já adotadas por blogs literários e booktubers), poderia ser uma boa forma de impulsionar mais o comum de obras de autores nacionais.

“Os best-sellers são uma classe de livros mais comumente menosprezada como sendo composta de objetos de diversão e não estudados como trabalhos de arte literária ou, no mínimo, como trabalho artístico considerável. Mas muita coisa se perde sobre a cultura contemporânea e sobre a história da leitura se nós os ignorarmos. Além do valor em termos de milhões de dólares, o valor dos escritores das listas de best-sellers é que nos fazem ler esses livros. Eles nos fazem imaginar, sentir, discutir, pensar e sentir empatia” – Jodie Archer e Matthew L. Jockers,  O Segredo do Best-Seller

O livro O Segredo do Best-Seller é uma ótima indicação de leitura para escritores que desejam entender quais elementos fazem sucesso entre os leitores. O estudo nos faz perceber que os leitores têm preferências por determinados termos, tramas e traçar o seu sucesso. Se você parar para pensar, não estamos tão distantes dessa realidade, desde que plataformas digitais de histórias, como o Wattpad, e empresas de publicação de eBooks começaram a atuar, como a Amazon, já que elas nos ajudam a entender através de estatísticas e rankings o que os leitores têm consumido e as histórias mais populares além de ganharem publicações impressas, também são sondadas para adaptações.

Um dos pontos interessantes no estudo de Archer e Jockers é que eles tentaram deixar de lado alguns fatores, como a popularidade do autor e se focaram no texto e através do algoritmo, dá para saber que um livro tem potencial mesmo quando o autor é desconhecido. Foram analisados os temas, enredos, estilos e personagens – cada um desses elementos têm o seu peso na experiência de leitura. Quando pensamos em 50 Tons de Cinza, por exemplo, segundo os autores, muita gente acha que o livro entrou para os mais vendidos por causa das cenas de sexo, mas segundo os dados do estudo, no sistema de algoritmo, o romance teve uma pontuação alta, tendo o seu sucesso explicado pela proximidade humana, conversas íntimas e comunicação não-verbal.

“Independente se o personagem é homem ou mulher, os protagonistas campeões de vendas têm e expressam suas necessidades. Esses protagonistas querem coisas, e descobrimos sobre essas vontades. Os verbos precisar e querer são os dois maiores diferenciadores entre vender e não vender – é impressionante que personagens em livros de menos sucesso têm uma chance notadamente menor de serem descritos em referência a necessidades e vontades. O livro campeão de vendas é um mundo em que os personagens sabem, controlam e exibem como funcionam” – Jodie Archer e Matthew L. Jockers,  O Segredo do Best-Seller 

Mesmo sem esses dados do estudo, já aconteceu de alguns livros fazerem sucesso e desconfiarem de sua autoria, como quando autores usam outros pseudônimos: J. K. Rowling (Robert Galbraith) e Stephen King (Richard Bach). Como os escritores deixam suas próprias marcas na escrita, mesmo que não seja possível confirmar 100% que é do mesmo autor, o sistema indicaria o potencial da obra. O estudo é bem relevante, pois não se foca somente em um gênero ou temática, mas mostra que é uma combinação de tópicos despertam o interesse do leitor, como casamento, trabalho, amor e crime. Segundo os autores, enquanto alguns escritores tentam explorar muitos tópicos, autores de livros best sellers tentam se focar em combinações garantidas e que tenham apelo universal para os leitores populares.

Em uma época de tantas publicações de livros – só para ter noção, só nos Estados Unidos, são publicados cerca 55 mil novas obras de ficção por ano, isso sem levar em conta os milhares de ebooks que não têm ISBN –, o estudo poderia ser beneficial para algumas editoras, autores independentes e profissionais da indústria do livro e ajuda a entender um pouco mais sobre o comportamento do leitor. De acordo com os autores do livro, os leitores acabam comprando mais livros de um mesmo autor, por exemplo, porque criam expectativas sobre como serão abordados determinados tópicos. Quando entendemos isso, percebemos a razão de muitos livros de autores best sellers seguirem determinada lógica, como Nicholas Sparks e Dan Brown – o que incomoda os críticos literários e até mesmo escritores mais tradicionais –, mas agrada o público de fãs.

“Os autores são conhecidos pelo tópico característico deles, e os fãs esperam que eles abordem esses pontos. Se essa marca registrada aparece em um terço do livro, o escritor de um livro por ano tem dois terços do espaço dele para apresentar os tópicos tangenciais que fazem cada livro novo parecer um pouco diferente” – Jodie Archer e Matthew L. Jockers,  O Segredo do Best-Seller 

O Segredo do Best-Seller fornece muitos insights e assim como os próprios livros populares são alvos fáceis de críticas e problematizações, também dá para imaginar o quanto pode ser problemática a ideia da substituição humana por máquinas na hora de escolher originais, ainda que esses algoritmos tenham sido obtidos com base nos comportamentos dos leitores. Para os escritores que desejam construir uma carreira e escrever para um público mais amplo, sem dúvidas, muitas das informações levantadas podem ser úteis. Essa preocupação com a aceitação do público e vendas não é algo exclusivo do universo editorial, acontece muito no universo dos filmes e das séries – muitas vezes, não temos ideias dos cortes que são feitos em roteiros e imagens para tornar algo mais comercial. Diante da concorrência e do desafio de se tornar um best-seller, embora nossa realidade de mercado seja bem diferente, dá para lembrar a força da ficção estrangeira por aqui (dos mil títulos mais vendidos em 2016 no Brasil, segundo a Nielsen Bookscan, somente 4% de ficção nacional é best seller, 96% é de ficção estrangeira) e usar alguns dados para antecipar tendências e estudar estratégias de promoção da literatura nacional.

Sobre os autores:

Jodie Archer – Adquiriu e editou livros para a Penguin UK antes de se dedicar ao programa de doutorado em inglês na Universidade de Stanford. Depois que conquistou seu Ph.D., ela trabalhou na Apple como líder de pesquisas sobre literatura e já foi consultora de vários escritores e empresas sobre sucesso literário. Agora, é escritora em tempo integral.

Matthew L. Jockers – É o professor assistente de inglês de Susan J. Rosowski na Universidade de Nebraska-Lincoln, onde dá aulas e coordenada o Nebraska literary Lab. Sua pesquisa já foi destaque no The New York Times, The Los Angeles Review of Books e outros.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad.

Veja também: 

38 Livros sobre Escrita e Criatividade

7 Palestras sobre Criatividade no TED que você precisa assistir 

10 Palestras com escritores no TED que você precisa assistir 

2 comentários:

  1. Gostei porque sempre tive curiosidade em entender como funciona essa seleção. Iniciante achava que era por popularidade, porém vc deixou claro na resenha que eles deixaram isso de lado. Fiquei interessada pela leitura <3

    Beijos

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    Respostas
    1. Oi, Clayci! Não deixa de ser por popularidade, mas o que o estudo aponta é que é possível descobrir mesmo de autores desconhecidos se há material potencial para entrar na lista de mais vendidos. Essa popularidade acaba sendo construída. Alguns autores conseguem entrar para a lista de best-sellers com seus primeiros livros, por exemplo. Vale a pena a leitura! Dá para entender bem porque livros best-sellers têm um apelo mais universal.

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