segunda-feira, 21 de maio de 2018

The Good Doctor: Personagem autista médico e o preconceito

A série The Good Doctor aperta a ferida da sociedade preconceituosa: a visão que as pessoas têm sobre quem tem limitações, como se autistas e pessoas com deficiências e comorbidades não pudessem estar em diferentes áreas de trabalho, mesmo que eles tenham as habilidades necessárias.

Meus olhos quase sangraram quando vi um artigo dizendo que as chances de alguém com Síndrome de Asperger se formar em medicina são mínimas. O preconceito com autistas não é velado, é escancarado. A verdade é que existem muitos Aspergers sem diagnósticos pelo mundo e eles se adaptaram sozinhos (talvez não perfeitamente), mas o que eu quero dizer é: estamos em todos os cantos, quer o preconceito queira ou não – não existe uma epidemia de autismo, existe uma enxurrada de informações que antes não circulavam e uma dificuldade sem sentido de diagnosticar. Se não fosse pela falha de diagnóstico (sabe-se que o grupo mais diagnosticado é o de garotos brancos, mas ainda há muito a ser feito na identificação de garotas, mulheres e homens, afinal, o autismo não é exclusivo da infância, tampouco é exclusivo somente de crianças privilegiadas) e o desconhecimento sobre os mitos e estereótipos do autismo, a quantidade de pessoas declaradamente autistas seria muito maior.


Humanização do personagem autista


Personagens como o Shaun Murphy (Freddie Highmore) deixam muitos telespectadores impressionados. Cada autista seja único, ou seja, nenhum é exatamente igual ao outro, cada um pode desenvolver uma relação diferente com as memórias e sensibilidades e o hiperfoco pode ser completamente diferente; alguns podem ser Savants (síndrome do sábio). Com memórias e habilidades excepcionais, alguns autistas podem enxergar padrões e usar seus conhecimentos para descobrir coisas que passam batidas por outras pessoas. Ele lembra muito uma versão mais nova do Dr. House.

Filmes, séries e livros, muitas vezes, apresentam personagens com os quais algumas pessoas têm mais facilidade de se conectarem. Acredito, sim, na importância da representatividade e como a ficção pode ser uma aliada em apresentar um mundo que é desconhecido por muitos, principalmente quando simpatizam com os personagens.

Vale lembrar: a representatividade de um autista jamais será 100% fiel, principalmente porque o espectro é amplo e mesmo autistas do mesmo grau (Aspergers, Savants, Leve, Moderado e Severo) podem ser bem diferentes – isso não significa que não possa existir algum autista bem parecido com personagens. É impossível colocar a expectativa de que o personagem seja uma representação universal, mesmo quando muitos dos comportamentos, dificuldades de comunicação e sensibilidade sensorial possam ser semelhantes. É claro que pessoas com habilidades de Shaun não representam todo o Espectro Autista, mas não quer dizer que não possam ser reais. Mesmo não sendo a intenção do criador da série, indiretamente, a série ajuda a entender um pouco mais sobre o universo do autista.

“Nós vimos vários médicos, nós consultamos várias pessoas, nós temos pessoas no espectro com quem estamos trabalhando, mas ele é um personagem específico. Ele não está lá para representar o autismo, mas para representar o dr. Shaun Murphy¨ David Shore

Essa diferença de relação que as pessoas constroem com personagens e pessoas provoca incômodo nos autistas, levando em conta de que no mundo real, o preconceito, o bullying e tantas outras formas de silenciamento e opressão são diários (gaslighting, mesmo sem querer, quando o autista é questionado sobre seu diagnóstico ou são desvalidadas sua forma de sentir o mundo e como algumas sensibilidades podem provocar mal-estar). Os personagens Sheldon (The Big Bang Theory) e Sam (Atypical), por exemplo, não vejo como ofensivos, mas há quem veja neles só uma representação cômica do autismo. Existe uma diferença de rir junto e rir de, e cada um tem o direito de ter sua própria opinião e devemos respeitar. Aprendi a rir de algumas limitações que eu tenho, em vez de me levar tão a sério. É fácil para algumas pessoas não-autistas se conectarem com personagens com traços autísticos, mas o preconceito cega as pessoas quando se trata do mundo real e isso faz as pessoas que estão no espectro autista refletirem porque muita gente adora os personagens, mas no dia-a-dia não fazem esforço para entender ou respeitar seus comportamentos.

As produções culturais podem contribuir com o que deveria ser trabalhado por médicos, psicólogos e professores e têm sido feito de forma insuficiente: a conscientização sobre pessoas neurodiversas, inclusão e aceitação. Autistas lidam diariamente com uma série de desafios, desde a ainda precária diagnosticação até os ajustes, respeito e adaptação. Desde a hora em que acordamos até o momento em que vamos dormir, tudo está relacionado ao autismo – não quer dizer que sejamos definidos só por nossa condição neurológica diversa –, quer nós desejamos ou não, mas isso não significa que autistas não possam ter seus sonhos e objetivos, só que os ajustes precisam ser levados em conta, para que os potenciais sejam desenvolvidos.

Em The Good Doctor, Dr. Shaun Murphy é um médico com habilidades excepcionais, mas com limitações na comunicação que poderiam atrapalhar sua carreira. Em vez de orientá-lo, o primeiro posicionamento dos colegas da equipe é o de vê-lo como alguém que não merece uma oportunidade. Isso nos faz pensar muito sobre o preconceito que autistas sofrem no mercado de trabalho, independente da área.

A série fez um trabalho de humanização do personagem. O Shaun é autista, mas não é só isso. É preciso lembrar que apesar do diagnóstico ajudar no entendimento dos comportamentos, o autista é um ser humano como qualquer outro. Embora seja bom com os conhecimentos médicos, os desafios de Shaun com a comunicação provocam estranhamento nos pacientes e nos outros médicos e funcionários do hospital (até que ele comece a aprender como se comportar e se comunicar de acordo com o contexto).

A relação entre Shaun e o doutor Aaron Glassman (seu mentor interpretado por Richard Schiff) lembra muito a relação entre o Dr. House e o James Wilson. Um ponto interessante é que Dr. House e The Good Doctor são do mesmo criador, David Shore. Na nova série de drama médico são exploradas várias questões contemporâneas e de que forma elas estão atreladas às dificuldades de adaptação de um médico autista que precisa ser capaz de captar coisas que não aprendeu na faculdade.

Assim como para Shaun é complicada a adaptação social e, muitas vezes, seus comportamentos o atrapalham, como o excesso de sinceridade (especialmente na frente dos pacientes), a crise diante de situações que o sobrecarregam e a dificuldade de entender relacionamentos, a equipe de trabalho também vai aprendendo como lidar melhor com ele.

Shaun não é um especialista perfeito, mas sua mente e sua memória visual são capazes de conectar as informações de uma forma que ele enxerga coisas que os outros médicos nem sempre conseguem. Quando a equipe trabalha em sinergia, os resultados são surpreendentes. A questão do preconceito contra o autismo de Shaun é trabalhada em todos episódios, de forma a mostrar que o contato social possibilita ao médico mostrar que tem o seu valor e que deve ser respeitado tanto quanto os outros membros da equipe – um esforço que os médicos não-autistas da série não precisam fazer para conquistar o respeito.

Cada episódio está repleto de reviravoltas na trama. Entender o passado de Shaun é tão interessante quanto observá-lo em prática. David Shore sabe como fisgar o telespectador ao apresentar quadros médicos interessantes, mas o drama humano é o que rouba a cena. Além de Shaun e do Glassman, os outros personagens também são complexos e vão se desnudando até revelarem suas essências e mostrando como suas personalidades e a vida fora do hospital estão conectadas com suas práticas: o desejo de ter filhos, a infância, as diferenças sociais, o assédio, entre outros conflitos do cotidiano e de seus passados.

David Shore pegou vários elementos que faziam sucesso em House e misturou ao drama com um protagonista autista: O ego médico; A ética; Os sacrifícios; A solidão; O casamento; A paixão; Os erros; A morte; A doença; Os fantasmas do passado; A família; Os investimentos; A amizade; A competitividade e a ambição.

A série nos faz refletir sobre várias coisas, especialmente sobre um dos comportamentos de alguém autista. Em vez de se focar somente nas limitações, Shaun mostra como sua honestidade, sua curiosidade e sua facilidade de acessar aos conhecimentos podem torná-lo um bom médico. No início, por exemplo, ele demora a entender que nem sempre pode fazer os exames que têm vontade por causa dos custos elevados para o hospital e como isso entra em conflito com sua ética médica, isso o deixa confuso; ou quando ele é sincero demais sobre os riscos de alguns procedimentos e tratamentos.

Um dos episódios mais marcantes, sem dúvidas, é aquele no qual ele atende um paciente autista. Embora sejam de graus diferentes, ele consegue entender o paciente e ajudá-lo. O episódio também toca em um ponto bem importante: o tratamento sem comprovação científica de autistas e de que forma isso pode ser prejudicial. Shaun se abre no episódio, dizendo que nunca teve o amor dos pais, mas pelo menos não foi obrigado a consumir algo que pudesse fazê-lo mal.

Assista ao trailer de The Good Doctor:




Gosto de pensar que The Good Doctor é como se fosse uma continuação de House, mas com um elenco diferente. Diria que a nova série médica preencheu um espaço deixado por Gregory House. Para quem sente falta da personalidade ácida do House, Shaun é um personagem bem mais leve, mas não deixa de ser tão fascinante quanto. A parte sombria de House fica a cargo dos médicos arrogantes, enquanto a genialidade fica para o ingênuo e curioso, Shaun. Mais do que um médico autista, The Good Doctor revela como as coisas fluem quando o preconceito é deixado de lado e como ele sempre dá as caras, seja de forma sutil ou escancarada.

A série norte-americana foi baseada em um drama sul-coreano também chamado The Good Doctor, escrito por Park Jae-bum e dirigido por Ki Min-soo e Kim Jin-woo. A série coreana foi lançada em 2013 e conta com 20 episódios.

Veja também: Autismo no cinema: Filme Tudo Que Quero faz estreia tímida no Brasil

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Parece autismo e é 

Não chore por nós

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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