segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Escrita Zen, Corrida e Arquearia: Como Encontrar o Equilíbrio

Sempre que começo a correr, a ideia de que essa atividade pode ser associada ao ato de escrever persegue os meus pensamentos. Existe alguma relação entre a escrita zen e a corrida? O conceito de zen, no qual o indivíduo pode observar a própria mente e paralisar os pensamentos, estando presente no aqui e agora, é aplicado em diversas artes, como a pintura zen, arquearia zen, artes marciais, e é claro, em uma das mais importantes atividades aprendidas pelo homem, a escrita.


No livro O Zen e a Arte da Escrita, do escritor Ray Bradbury – o qual eu sempre recomendo aqui no blog para quem tem mais interesse em aprender sobre o ofício do escritor –, o autor aborda a necessidade de se escrever muito, ou seja, muita prática e disciplina diária, até que o ato de contar histórias se torne natural. Logo, para quem imagina que os escritores são mágicos com as palavras e o texto flui naturalmente, desde as primeiras vezes, está muito enganado. Assim como qualquer atividade, exige treino, muita escrita, reescrita, revisão, até que o processo vá se tornando orgânico.

“E não é o mesmo com a corrida?”, eu te pergunto. Correr exige treino constante. Achar que você vai se transformar em um corredor da noite para o dia só vai te garantir uma coisa: dor no corpo. Antes de iniciar a corrida, é preciso se alongar, se aquecer e preparar o seu corpo, dia após dia, para que ele esteja pronto para funcionar de forma equilibrada.

Colocar os tênis de corrida são equivalentes a separar o seu material de escrita. Depois disso, vem o alongamento, para prevenir as futuras dores e entrar no clima da atividade. Os primeiros rabiscos no papel correspondem à caminhada antes de começar a correr, não precisa ter pressa, é preciso respirar bem e soltar os músculos. Após o aquecimento, vem a parte mais esperada: a corrida em si, ou no nosso caso, a escrita.

Você sabia que um arqueiro precisa treinar sempre para atingir o seu alvo, a ponto da flecha acertá-lo de uma distância que você nunca imaginaria possível, seja de olhos abertos ou fechados? No livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, do Eugen Herrigel, o autor viajou para o Japão para descobrir mais sobre essa arte, pois só tentar compreender a teoria não é suficiente, é preciso viver a experiência.

“Somos parte de tudo o que existe no mundo. Quando compreendemos esse fato, veremos que não estamos escrevendo, e sim deixando que todas as coisas escrevam através de nós”. – trecho do livro Escrevendo com a Alma, Natalie Goldberg

Antes que você se perca nessa relação: arco-e-flecha, corrida e escrita, é preciso entender que nessas atividades e em muitas outras, há um instante em que a mente e a ação se fundem em uma coisa só, desaparecendo a divisão entre arco e arqueiro; escrita e escritor; corrida e corredor. É neste caminho do meio ou equilíbrio que o zen se faz presente e tudo ao seu redor desaparece. Uma autora que faz a escrita zen se tornar fácil de entender e ensina como praticá-la é a Natalie Goldberg, autora de Escrevendo com a Alma – mais um livro que estou sempre recomendando!

Os desafios iniciais

A princípio pode parecer difícil entender, até porque isto é algo que você precisa experimentar por conta própria – um texto nunca vai substituir a sensação que você teria na prática. Primeiro, vou dar como exemplo o tiro com arco. Eugene Herrigel comenta no seu estudo que quando precisou praticar, ele pensava tanto em como fazer para executar o tiro com perfeição e seu mestre percebia o excesso de intenção. Era preciso que ele praticasse primeiro o modo certo de segurar o arco-e-flecha, depois o ato de disparar – que, na verdade, é como se a flecha deslizasse dos dedos e fosse lançada em direção ao alvo. O arqueiro demorou anos até entender que quanto mais ele tentava forçar o processo, pular etapas ou usando energia demais, ele só se cansava e o resultado não era o esperado.

Então, quando se trata da corrida e da escrita pode acontecer a mesma coisa. Uma pessoa que nunca foi fã de esportes, com um péssimo condicionamento físico e decide de uma hora para a outra começar a correr, usando muita energia, vai se exaurir em poucos minutos. Correr parece algo impossível! “Por que para os outros parece tão fácil?”, ela se pergunta, olhando os outros passando por ela. Digamos que este é o primeiro dia que você colocou em sua cabeça que vai correr e já está se sentindo derrotado por não ter sido como esperava. O mesmo acontece com escritores iniciantes, que nem aprenderam o básico sobre escrita e já estão sonhando em escrever uma trilogia ou uma série de mais de cinco livros. Não te parece óbvio que antes de sonhar poder publicar o livro, você precisa aprender a escrever um?

“Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é sua vez. Pule!” – trecho do livro O Zen e a Arte da EscritaRay Bradbury

O erro principal de quem está começando a escrever é a falta de planejamento. Escrever, como qualquer outra atividade, exige disciplina, pesquisa e treino. Tentar escrever um livro inteiro quando você não consegue escrever um capítulo consistente é o mesmo que tentar correr uma maratona quando você não consegue caminhar sem ficar todo ofegante! Como escrever um livro? Como virar escritor? Assim como tudo na vida, a não ser que você tenha muito dinheiro para pagar alguém para escrever para você, colocar o seu nome lá e se sentir em paz assim, é praticando.

Progressos

Da mesma forma que Eugen Herrigel tendo conhecimentos teóricos, durante anos, sobre o zen budismo, precisou aprender na prática a importância do relaxamento, de respirar corretamente e da boa técnica, nós também cometemos o erro de colocar os pés pelas mãos na pressa de conquistarmos nossos objetivos. O praticante pergunta ao mestre dele por que ele não o ensinou antes a importância de respirar bem e ele o respondeu: “Se desde o início eu tivesse lhe ensinado os exercícios respiratórios, você acharia que eram desnecessários. Agora você irá acreditar naquilo que eu lhe digo, e irá praticar como se fosse realmente importante. Quem sabe educar, age assim”.


Fazemos a mesma coisa quando ignoramos os passos iniciais, só para depois descobrirmos que temos que voltar atrás. A partir do momento que paramos de tentar pular as etapas e disciplinamos nossos corpos e mentes, os resultados começam a aparecer. Na corrida, por exemplo, nas primeiras vezes ficamos tão preocupados com a atividade que respiramos forçadamente, sentimos as pernas pesadas, o coração acelerado e parece que a qualquer minuto vamos cair duros no chão.

Já ao escrever, parece que é preciso um empurrãozinho. Você escreve um pouco, aí pensa em outra coisa, faz uma pausa, volta a escrever, seja sem estar 100% comprometido ou abusando de técnicas que podem tornar a sua história maçante. Sabe quando dizem que parece estar faltando alma nos personagens? Que os conflitos são óbvios demais? Que o final era previsível? Ou que a leitura não fluiu? Enfim, há uma série de elementos que começam a ser desenvolvidos na prática, mas que ainda não estão naturais, deixando o texto artificial demais, o ato muito mecânico.

O Caminho do Meio

Quando você menos se dá conta e já eliminou aquele pensamento obsessivo de: “Preciso fazer isso, não importa como”, você começa a achar o seu ponto de equilíbrio. É preciso ter os objetivos bem definidos, no entanto se você não limpar a mente e aprender a meditar, suas ideias repetitivas podem te fazer cometer os mesmos erros.

"O momento de soltar a flecha acontece de maneira instintiva, mas antes é preciso conhecer bem o arco, a flecha e o alvo. O golpe perfeito nos desafios da vida, também usa a intuição; entretanto, só podemos esquecer a técnica depois que a dominamos completamente." – trecho do livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, do Eugen Herrigel

Relaxe! Mais do que conhecer a técnica, é preciso confiar em si mesmo e deixar a atividade ganhar vida. Então, de repente, a corrida já não parece um esforço. Você está tão confortável correndo que é como se estivesse voando, você parou de lutar contra si mesmo (de correr de si mesmo) e sua mente e corpo, corrida e corredor estão em sincronia. Lembra quando você começou a correr e não via a hora de parar, para poder descansar? Seus limites foram ultrapassados e você se sente tão bem e relaxado que poderia continuar correndo e correndo, sem se importar com o tempo, com as outras pessoas correndo ou com os pensamentos negativos que te faziam sentir vontade de desistir.

Na escrita zen, o resultado é parecido. Se no início você estava preocupado demais com a técnica, com o formato do texto, de repente, o processo se torna tão natural quanto respirar – quando respiramos, não pensamentos conscientemente: “Agora vou respirar”, você simplesmente inspira o ar e expira. Você libera a criatividade e vai escrevendo de forma tão livre e natural, que esse se torna o seu novo jeito ‘normal’. E a cada vez que pratica, mais se conecta consigo mesmo, entende o seu próprio processo de criação literária, o que te ajuda ou atrapalha na hora de escrever, que exercícios de escrita criativa podem te ajudar a colocar no clima, quantas palavras escrever em média por dia... Depois, é interessante comparar os textos iniciais com as histórias mais desenvolvidas – essa reescrita é necessária, pois apesar de começarmos a escrever um livro com uma intenção forte, é, muitas vezes, depois de bastante prática que o processo se tornou mais consistente.

Escrita Zen

Como escrever bem? Praticar a escrita zen não é complicado, basta ter essa repetição diária e parar de querer os caminhos fáceis. Não é um processo que você pode apressar, quando você estiver preparado ele virá até você. Quando você menos esperar, vai estar tão equilibrado, como se estivesse em transe, escrevendo e escrevendo sem parar, com facilidade.


O que Buda ensinou pode nos ajudar a encontrar o caminho do meio, o equilíbrio necessário para alcançarmos nossos objetivos de forma certeira, sem desperdiçar energia. É um processo que exige bastante prática, um pouco de meditação, mas assim que se atinge o estado em que a arte e o artista se tornam um só, em que o pincel, as mãos e a mente do pintor estão conectados, e nem mesmo os barulhos podem nos incomodar, então estamos presentes e conscientes do que estamos fazendo.

Algumas músicas para meditar e relaxar podem ajudá-lo a entrar no clima. Se quer saber como escrever corretamente, a resposta é a mais óbvia: Ler e escrever ainda é o melhor jeito. Estude o gênero que deseja escrever seu livro, pois cada um tem sua particularidade. Há escritores iniciantes que transcrevem trechos de romances de grandes escritores para aprenderem e tentarem captar os movimentos de escrita utilizados. Na hora de aprender, o importante é escrever muito, colocando em prática suas técnicas, de forma que fique tão natural que você não precise ficar preocupado durante o processo e possa simplesmente deixar as ideias fluírem no papel.

4 comentários:

  1. Oi Ben. Escrita é treino mesmo. E muito treino. E deve ser diário para que possamos nos aperfeiçoar. :)
    Abraços
    http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Gih! Muito obrigado pela visita. Adorei a entrevista no seu blog!
      Realmente, não existe caminho fácil para 'se tornar escritor'. É muita leitura e escrita... Disciplina sempre!
      Abraços

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  2. Olá. Adorei o seu blog. E gostaria de podermos trocar mais ideias. Estou querendo desempacar e escrever que sempre foi o meu sonho, mas nos últimos anos não estou me esforçando nada para realizar. Eu sou jornalista e no momento atuo como funcionária pública. A escrita que exercia há uns 10 anos atrás era voltada para o Jornalismo. Depois parei por alguns motivos particulares.

    Não conhecia a escrita Zen, comecei a ver alguns blogs associando Zen a administração, a CRM, etc, mas a escrita é a primeira vez e estou vendo que é uma ótima ideia. Está me estimulando.

    O blog também. Obrigada.

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    1. Oi, Fabi! Obrigado pela visita.

      A filosofia Zen pode ser aplicada a qualquer atividade e basicamente está relacionada à essa capacidade de se entregar ao momento e se dedicar ao que está fazendo, de forma que o escritor e a escrita se tornem um só. Se você tem afinidade com o jornalismo, uma boa forma de praticar é escrevendo crônicas. O importante da escrita zen é praticar. Obviamente, nem tudo escrito é publicável. Mas quanto mais você praticar, mais as coisas vão fluindo. É uma ótima forma também de se conectar consigo mesmo. Quando a escrita trava, por exemplo, o ato de escrever sobre o bloqueio, já é uma forma de 'desbloquear'.

      Espero ter ajudado! Coloque no papel suas ideias e mande ver! Não deixe a escrita morrer \o\ Escreva nem que só para você mesma – além de manter a criatividade viva, é bom para relaxar e praticar o desapego.

      Abraços! Qualquer coisa, deixa um comentário, interage pelo Facebook (https://www.facebook.com/BlogDoBenOliveira/).

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