Nos dias de silêncio estava dividido entre a fadiga e a ansiedade. Amava escrever, mas sentia como se não tivesse energia suficiente. Não poderia negar: gostava da sensação de estudar. Porém, os conteúdos difíceis eram como pedras: sabia que para algumas coisas precisava de um tempo a mais. Entre aulas mais calmas, intermediárias e complexas, tentava fazer o melhor possível para aprender, sem se comparar com os outros, sabendo que cada um era único e todos tinham suas facilidades e dificuldades. A verdade era que mesmo coisas que gostávamos poderiam nos deixar cansados e tínhamos que tomar cuidado para não entrar em estado de esgotamento. Estava fazendo o possível para deixar a rotina equilibrada, de forma que não tivesse mais sobrecarga mental. O excesso de estudo poderia ser pior do que não estudar. Escrevia para registrar como os dias estavam sendo. Escrevia para matar a saudade de escrever. Escrevia para estudar. Escrevia. *Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo . Auto...
A Teia de Germano é um romance para quem tem amor à arte de contar histórias e todos os elementos que envolvem esse belo ofício. Escrito por Roberto Muniz Dias, a obra faz o leitor viajar pelas histórias, através das memórias de Lúcio, um ghost writer contratado para escrever um livro biográfico do escritor aclamado Erich. As diferenças entre os dois são notadas nas primeiras páginas. Ao longo da leitura escuta-se uma voz: “Será que eles são tão diferentes assim?”.
Roberto explora a metalinguagem. Conta-se uma história dentro de outra história, ou melhor, “a obra sobreposta sobre a obra”. Com a tarefa de escrever sobre a vida de Erich, Lúcio conversa com o escritor que tanto admirava, analisa suas fotos, cartas, memórias e faz o que pode para tentar mergulhar na essência do outro. Neste processo de descoberta do escritor, ao mesmo tempo, ele acaba nadando no seu próprio “lago da linguagem”, como diria Stephen King, onde ficam nossas experiências mais marcantes, nossos medos e desejos do subconsciente.
Nesta mistura entre fluxo de pensamentos, cartas e diálogos, o leitor vai se envolvendo cada vez mais com personagens. Questionamentos sobre as coincidências vão surgindo. Lúcio reflete o que mudou no primeiro livro de Erich até o estado atual dele. O ghost writer gostava tanto do protagonista, Germano, um rapaz sonhador, que carregava seus sonhos, e agora seu autor estava velho e doente. Ao enxergar as desilusões e verdades de Erich, Lúcio refletiu sobre a própria existência, o amor, o equilíbrio.
“Parece-me que sempre estamos construindo e desconstruindo – ou alguém destrói para você”.
Procure as questões principais que levam alguém a se tornar escritor, – ou melhor, a receber o chamado do ofício, visto que, muitas vezes, parece mais uma vocação do que escolha –, e as encontrará no texto. A solidão e loucura, o resgate do passado, a efemeridade, a esperança, a dor e alegria, medos e incertezas, Há certa beleza na tristeza? A arte literária que faz o leitor se mover, se transformar, e assim como Lúcio, encontrar suas proximidades com o autor. Sente-se um aperto no peito, uma nostalgia, aquele instante em que nos confrontamos com o que escondíamos de nós mesmos.
“Germano e Lúcio cresciam em dois mundos diferentes, mas tentavam encontrar fórmulas para entender suas próprias histórias. Não sabiam o que era afeto, carinho, coisas que estavam além de seus conhecimentos. Vivem inventando alternativas para viver, mesmo cumprindo suas tarefas diárias. Encontravam no final do dia um movimento para viver outras histórias. E começaram a desenvolver hábitos parecidos: escondiam debaixo de seus colchões”.
Encontra-se a fragilidade humana. Se possível fosse espremer as páginas do livro, qual seria sua essência? A mesma busca de Lúcio acaba se tornando a jornada do leitor. Lágrimas, sangue, sonhos despedaçados, abandonos, lembranças que preferia reprimir, acontecimentos que você gostaria de ter cristalizado. Neste estranhamento, percebe-se que as familiaridades são mais do que coincidências, entre Germano, Lúcio, Isadora, Erich e o leitor. O romance traz um belo final catártico, numa tentativa de nos reinventarmos e ressignificarmos nossos passados.