quarta-feira, 5 de abril de 2017

Paranormalidade: Livro de Richard Wiseman explica fenômenos da parapsicologia

Paranormalidade. Fenômenos estranhos e sem possíveis explicações, ainda que temporariamente, fizeram e ainda fazem parte da história da humanidade. Entre técnicas, fraudes confessas, imaginação hiperativa, força da sugestão, entre tantas situações, no livro Paranormalidade: Por que vemos o que não existe?, o pesquisador de parapsicologia Richard Wiseman abordou alguns dos principais mistérios recorrentes de tempos em tempos. A obra Paranormality: Why we see what isn’t there foi publicada no Brasil pela Editora Best Seller (Record), em 2017, com tradução de Fátima Santos.


Richard Wiseman passou anos de sua vida se dedicando à carreira como mágico profissional e posteriormente, após estudar psicologia, se aventurou pelo universo das pesquisas sobre médiuns e paranormais, ‘comprovando’ que muitos deles não passavam de charlatões. No final das contas, em grande parte dos casos, aquela máxima continua valendo: “Acreditamos no que queremos acreditar”. Mãos não tão invisíveis assim se movimentam diante de nossos olhos, mas procuramos coincidências e acabamos nos focando no que nossas mentes estão dispostas a encontrar.

Um dos pontos principais do livro, acredito, talvez seja a questão da importância da preservação da sanidade mental, principalmente quando estamos sujeito a todos os tipos de influências e manipulações, não se tratando somente de questões esotéricas ou religiosas, mas das políticas também. Pessoas suscetíveis ao sugestionamento e lavagem cerebral não só correm o risco de terem perdas materiais, doando dinheiro e objetos de valores para instituições e pessoas que vão usar esses recursos para bem próprio, como em casos extremos podem ser levadas à violência, morte, isolamento ou aos casos de suicídio coletivo – a meu ver, situações bastante preocupantes, especialmente em épocas de crises econômicas e políticas, nas quais as pessoas se sentem mais vulneráveis. Richard Wiseman cita o caso de Jim Jones, um líder de um movimento religioso responsável por incitar o suicídio de mais de 900 pessoas, uma das maiores perdas de vidas de americanos em desastres não naturais já registradas na história dos Estados Unidos.

“Por mais de trinta anos, psicólogos especularam sobre a forma como Jim Jones persuadiu tantas pessoas a tirar suas vidas e pais a matar seus filhos. Alguns ressaltaram que a maioria da congregação do Temple era composta de indivíduos psicologicamente vulneráveis que estavam desesperados para acreditar naquela mensagem de igualdade e harmonia racial […] Sua missão também era atraente porque fornecia às pessoas uma forte sensação de propósito, um alívio dos sentimentos de inutilidade e os tornava parte de uma grande família de indivíduos atenciosos e com ideias semelhantes” – Richard Wiseman, em Paranormalidade

Como escritor e alguém fascinado por filmes de terror sobrenatural, uma das minhas partes favoritas do livro Paranormalidade foi sobre a tábua de Ouija. Richard Wiseman vai além das possíveis explicações sobre como os objetos usados para invocações espirituais, desencavando um pouco da história de Margaret Fox e Kate Fox por trás do espiritualismo moderno – elas foram responsáveis pela popularização da doutrina nos Estados Unidos, quando não só boatos sobre fenômenos estranhos que aconteceram em sua casa. Segundo o pesquisador, o que explicariam os movimentos da Ouija e demais materiais utilizados em sessões espirituais seriam movimentados pela inclinação de alguns objetos, bem como pelos movimentos das mãos.

Após inúmeras sessões como médiuns, participando das famosas mesas, batidas na madeira e contatos com os mortos. As irmãs Fox, como ficaram conhecidas, vieram a público no futuro e revelaram que tudo não se passava de uma farsa, desde as batidas na mesa, os quais eram feitos por movimentos da perna até quando movimentavam objetos com barbantes. No entanto, mesmo com a declaração pública e demonstração feita por Margaret Fox, as pessoas já estavam encantadas pelas ideias que elas mesmas ajudaram a divulgar.

“A confissão dramática teve o efeito desejado? Os aproximadamente oito milhões de espíritas apenas nos Estados Unidos esbugalharam os olhos em horror e abandonaram sua fé recém-fundada? Tristemente, o único impacto real da confissão foi distanciar as irmãs de seus seguidores. A grande maioria dos espíritas estava ansiosa para se apegar à ideia consoladora de que poderiam sobreviver à morte corporal” – Richard Wiseman, em Paranormalidade

Além dos objetos de invocação que eram usados em sessões espiritualistas, o autor também toca em outro ponto que ainda desperta a curiosidade das pessoas: a escrita automática (também conhecida como psicografia), citando o exemplo de Pearl Curran, uma mulher que alegava ter escrito mais de 5 mil poemas e romances. Wiseman cita pesquisadores que investigaram esses fenômenos que alegaram que tanto os movimentos, como a escrita, estavam relacionados ao cérebro e ao inconsciente.

A natureza dos sonhos e a viagem astral também são exploradas por Richard Wiseman. O autor fala sobre alucinações e ensina técnicas para 'sair fora do corpo', acreditando que são como se fosse uma espécie de sonho lúcido, no qual o praticante tem controle dentro do sonho, diferente do que se acredita. Para o pesquisador, as premonições, por exemplo, seriam simples coincidência e associações entre os sonhos e eventos, levando em conta que diariamente temos vários sonhos e vez ou outra, eles podem se encaixar com o que está prestes a acontecer.

Apesar de ser um livro que toca em vários pontos, senti falta de alguma parte dedicada aos fenômenos de possessão espiritual, ainda que o autor fosse investigar a partir do seu viés cético, imagino que seja um assunto que renderia muitos comentários, levando em conta que uma vez ou outra, alguns casos acabam ganhando destaque na mídia, como o caso do garotinho que ficou possuído e só melhorou após exorcismo – documentado pelo jornalista Thomas B. Allen, no livro Exorcismo e escrito de forma ficcional pelo escritor e roteirista, William Peter Blatty, autor de O Exorcista, entre tantos outros que são mantidos em segredo por inúmeros motivos, como por preservar a identidade das vítimas, mortes relacionadas (seja da vítima ou envolvidos) e pela dificuldade de encontrar respostas.

Vale ressaltar que, do mesmo modo que investigadores paranormais que realmente acreditam em fenômenos sobrenaturais, como Ed e Lorraine Warren (autores de inúmeros livros sobre casos sobrenaturais), Ralph Sarchie (um ex-policial que se dedica há anos ao estudo da demonologia e exorcismos, autor do livro que inspirou o filme de terror Livrai-Nos do Mal) ou Maurice Grosse e Guy Lyon Playfair (que investigaram um dos mais famosos casos Poltergeist do mundo já documentados, o caso de Enfield) são contestados como fraudes, o próprio Richard Wiseman não é visto totalmente com bons olhos por outros pesquisadores, dividindo a opinião dos leitores e outros especialistas sobre os resultados descritos em seu livro, já que de todos os casos divulgados por ele, Richard só escreveu sobre os que ele teria um posicionamento claro, por meio do seu dogma de ciência materialista – enquanto muitos pesquisadores de parapsicologia e fenômenos psíquicos da Society of Psychical Research , embora não tenham respostam, concordam que há fenômenos que não são de causa normal.

Richard Wiseman compartilhou informações bem interessantes sobre o universo dos fenômenos paranormais, porém parece ter deixado de lado questões que não são tão fáceis de responder. Embora muitos casos possam ter uma possível relação com fraude, existem fenômenos espontâneos sem ação humana. A ciência está preparada para responder tudo? Richard parece convencido de que sim. Ainda assim, experiências estranhas continuam acontecendo em diferentes lugares do mundo, com alguns pontos em comum, como os poltergeists e aparições coletivas: barulhos de passos, princípios de incêndio, objetos movendo sozinho, entre inúmeras outras ações que foram e continuam sendo investigadas por sociedades de pesquisa paranormais.

"O mero ato de pensar sobre qualquer tipo de atividade faz com que seu inconsciente automática e imediatamente prepare seu corpo para agir. Ao tentar não se comportar de determinada forma, você interfere na maneira geralmente eficiente com que o inconsciente controla suas ações. E é muito provável que a sensação de livre-arbítrio que você está experimentando neste exato momento não seja nada além de uma grande ilusão" – Richard Wiseman, em Paranormalidade

Independente de ser um cético que por vivência sabe que há coisas que não são fáceis de explicar, o livro veio em boa hora, já que estou me planejando para escrever meu próximo livro de terror sobrenatural, proporcionando um ótimo contra-ponto com livros sobre fenômenos paranormais – assim como personagens que acreditam e aqueles que permanecem convictos de que não passa de bobeira, até que eles mesmos presenciam algo (muitas vezes, não é o que acontece na vida real?). Ao mesmo tempo em que Richard Wiseman fornece alguns insights, apresenta algumas informações óbvias. Charlatanismo nunca foi uma novidade quando se tratam de fenômenos paranormais, mas será que não parece pretensioso demais negar e generalizar toda a natureza desses acontecimentos estranhos? Os interesses pela fama e pelo dinheiro advindos desses casos quando ganham a mídia talvez sejam motivadores para quem flerta com as farsas, porém assim como existem os exibicionistas, também existem casos e pessoas que não fazem a mínima questão de aparecer na mídia, ganhar dinheiro com isso ou influenciar outras pessoas.



Richard Wiseman foi um mágico e como tal, aprendeu sobre a natureza da ilusão, truques e como a mente reage diante de situações assim. No livro, ele até mesmo ensina como as pessoas podem reproduzir algumas técnicas para impressionarem os amigos, desde brincando com a tábua de Ouija, passando pela leitura de mãos e adivinhações. Já outras coisas, como combustão espontânea, objetos que se movem sozinhos, barulhos e vozes, efeitos visuais... Poder da mente? Espíritos? Influências? Fenômenos físicos? Há uma série de elementos que a ciência e a religião ainda não sabem como explicar, independente do que acreditamos ou não e continuam intrigantes, mesmo com tantos avanços nas pesquisas.

Sobre o autor – Richard Wiseman começou sua carreira como um premiado mágico profissional. Após terminar a faculdade de Psicologia, passou quatro anos pesquisando paranormais e médiuns como parte de seu doutorado na Koestler Parapsychology Unit, da Universidade de Edimburgo. Nos últimos vinte anos, ele vem investigando a psicologia da paranormalidade, passando noites em claro em castelos assombrados, investigando gurus na Índia, tentando falar com os mortos e examinando cães sobrenaturais. Publicou mais de 50 trabalhos acadêmicos sobre a paranormalidade e é um dos membros do Comittee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal. Em 2010, o Independent on Sunday o nomeou uma das cem pessoas que tornaram a Inglaterra um lugar melhor para se viver.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

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