quinta-feira, 1 de junho de 2017

Escritores no Brasil: Jornadas repletas de desafios e ciladas

Há quatro anos, eu participava do meu primeiro lançamento, Loveless, uma coletânea de contos com temática gay – um conto de fantasia sobre um garoto ninfomaníaco que encanta um vampiro e um thriller sobre homofobia internalizada e como se envolver com as pessoas erradas pode levá-lo à morte. O desafio era escrever histórias do universo LGBT que não fossem românticas, mostrar diferentes possibilidades, já que na época, as principais narrativas pendiam para o amor romântico entre dois personagens do mesmo sexo. O evento foi decisivo na minha vida e me impulsionou a continuar escrevendo.


Escrita é benção, mas também é maldição. De lá pra cá, muitos sacrifícios. Cada um sabe o que faz pelos seus sonhos. As coisas movem lentamente no Brasil, mas movem e é o que importa. Leva um tempo até você ter coragem de dizer que é escritor, um ofício tão desvalorizado no país, em um mundo de egos espinhosos e preconceitos literários.

Desde então, venci alguns concursos literários, fui pré-finalista do Prêmio Sesc com meu primeiro romance escrito, o thriller Amores Mortais, 11 contos publicados, publiquei na Amazon o meu romance de terror Escrita Maldita, publiquei no Wattpad a minha série de livros de fantasia Os Bruxos de São Cipriano, estou escrevendo meu próximo livro de terror e muitas histórias que estão por vir.

Para quem conhece a realidade do país, sabe que tem muitas ciladas e desafios – nosso mercado é um bebê perto da realidade de fora. Resiliência nos deixa mais fortes e conscientes dos nossos objetivos. Gratidão pelas coisas boas, pelas ruins. Tudo é aprendizado e nada pode parar almas sonhadoras.

Por que é tão importante escrever sobre essas coisas? Não se trata de ficar só lamentando e comparando a realidade do escritor nacional com a do escritor internacional. Os leitores precisam saber que o apoio deles faz toda diferença, que o mercado se movimenta a partir da demanda. É muito mais fácil para uma editora investir em um livro que teve todo um planejamento de marketing lá fora e um investimento pesado do que investir em autor nacional. A quantidade de livros estrangeiros traduzidos publicados nos Estados Unidos e Reino Unido, por exemplo, segundo um artigo publicado na BBC em 2014, é somente de 2 a 3%, a taxa é bem maior entre outros países, como na França (27%) e Espanha (28%). No Brasil não é preciso nenhuma estatística para saber. Basta conferir a lista de livros mais vendidos, por exemplo, consumimos muito mais literatura estrangeira do que brasileira.


Essa diferença de realidade molda o nosso mercado editorial. Enquanto fora do país, algumas práticas são consideradas esquemas e ciladas, como o oferecimento de pacotes de publicação, nos quais os autores assinam contratos e as empresas não cumprem com o que foi estabelecido, no Brasil, essas atividades se tornaram naturalizadas. O escritor brasileiro não só, muitas vezes, paga para publicar o próprio livro, como lida com inúmeros problemas relacionados ao contrato, como o não recebimento correto de direitos autorais (existem autores nacionais que publicam livros e nunca receberam um centavo), revisão textual (pagar milhares de reais por um serviço mediano e ter mais erros do que se você mesmo tivesse revisado), capas genéricas (a capa é parte fundamental da identidade e do marketing do livro), distribuição (um problema bem comum no Brasil, que exige transparência da parte da prestadora de serviço; se o livro não vai estar disponível em livrarias, é melhor deixar isso claro do que mentir que vai estar e o autor descobrir mais tarde que não), formatos (o autor precisa saber quais formatos o livro vai estar disponível: físico, ebook, audiobook e se está no contrato, precisa ser cumprido), quais são as limitações (muitos autores fecham contratos, se frustram e ficam presos no contrato até o encerramento, quando teriam mais liberdade se tivessem apostado em uma editora boa ou na publicação independente, outros não consultam advogados antes de assinar o contrato e têm receio de exigir seus direitos), entre tantas outras situações, como escritores que pagam e nunca veem os livros publicados por que a editora fechou as portas e não devolveu o dinheiro. Quando você tenta ajudar alguém e a pessoa sente como se você estivesse com inveja do 'sucesso' dela, apesar de saber que nada é fácil por aqui, vê que alguns recebem o que cultivam – você não é meu inimigo nem meu concorrente e se você se sente assim em relação a mim, já é um problema seu, não posso fazer muito. A escrita é o mínimo do que se espera de um autor nos dias atuais. Ele precisa pesquisar e estar atualizado sobre o mercado dos livros. Ficar de olho em sites como o PublishNews e PublishersWeekly, entre inúmeros outras publicações virtuais sobre a vida de escritor e o mercado da publicação, que pretendo recomendar em breve e fazer uma lista aqui no blog.

É importante que o escritor tenha consciência sobre as diferentes formas de publicações (editoras tradicionais – não cobram dos autores –, prestadoras de serviço, publicação independente, publicação por demanda), para evitar dor de cabeça. Bato nesta tecla, pois é muito comum o desconhecimento sobre como funciona o mercado editorial, a importância do autor fazer o seu próprio marketing (também não adianta jogar toda a responsabilidade nas costas da editora) e de saber o que é melhor para ele – o que funcionou para um colega autor pode não ser o melhor para você e vice-versa. Não existem fórmulas mágicas do sucesso de autor seja no Brasil ou pelo mundo, mas quando o autor está firme em seus propósitos, tem um planejamento e sabe quais são os seus objetivos, tudo flui com mais facilidade. Nada acontece da noite para o dia, é uma construção diária. Quanto maior a plataforma de leitores de um autor, maiores são as chances de se dar bem no mercado dos livros, independente da jornada de publicação escolhida.

O que aprendi ao longo desses anos? A desconfiar. Eu gostaria de dizer que tudo é maravilhoso, mas não posso. Não sou bom com mentiras, nunca fui – deixo isso para a ficção, o que é questionável, já que mesmo no texto, o autor precisa encontrar a verdade dos personagens. Desconfie de quem tenta fazer parecer que tudo é só arco-íris, pois as chances são de que a pessoa esteja mentindo ou de que ela seja privilegiada (o dinheiro abre as portas de qualquer pessoa, em qualquer meio profissional). Conheço escritores brasileiros talentosos que estão há anos na luta e ainda não chegaram aonde gostariam, infelizmente, o mercado não é fechado só para iniciantes, é fechado para todos. Existem muitas pedras, algumas vão te cortar, outros vão te ajudar a subir e outras vão te fazer escorregar. Algumas pessoas não conseguem se recuperar desses tombos, infelizmente, muita gente acaba desistindo da escrita, outras, transformam essas experiências em aprendizado. Existem ciclos viciosos: escritores não deveriam se acostumar a sempre pagar e nunca receber direitos autorais ou a serem silenciados. Se você quer ter uma carreira de escritor profissional (nem todos querem, alguns só querem ver os livros publicados e está tudo bem) e sempre paga para trabalhar, não espere que alguém vai te pagar pelo seu serviço.

*Lembrando: pagar por serviços editoriais não é errado, mas se o autor quer construir uma carreira em cima disso e ele só paga, nunca recebe os royalties corretamente, dificilmente vai conseguir.


Cuide bem dos seus sonhos! Centenas de escritores iniciantes (e até escritores veteranos), por exemplo, são vítimas de prestadoras de serviço que copiam e colam a mesma mensagem dizendo que o livro é bom e tem potencial de ser publicado, quando nem mesmo passaram da primeira página. Autores conversam entre si e trocam mensagens. Basta abrir os olhos e saber onde procurar. Entre acreditar em uma mensagem copiada e ouvir os conselhos dos coleguinhas, muita gente prefere ler o que quer ler e está tudo bem. Quando alguém tenta te avisar, ela quer evitar que você passe pelos mesmos erros e sabe que mesmo se você optar em seguir em frente, a consciência dela está limpa de ter feito o que ela gostaria que alguém tivesse feito por ela na mesma situação. Geralmente, quem tentou ajudar é visto com maus olhos e chega uma hora em que elas cansam de ajudar, por que sabem que não só muitos não escutam, como também tentam ridicularizá-las na internet ou entram em listas negras.

Nem todo mundo que cruza o seu caminho quer o seu melhor, assim como acontece em qualquer meio profissional. Alguns vão te ver como inimigos, concorrentes; outros vão se aproximar com segundas intenções ou para sugar suas energias. Ainda bem que existem aqueles que não só te respeitam, como têm planos parecidos e lutam diariamente por eles. As coisas são tão difíceis para autores nacionais, que muitos acham que desmerecer o trabalho do colega é uma forma de se sentir melhor – tente sobreviver nesses Jogos Vorazes, se for capaz! Existem até mesmo aqueles que não leem os livros, mas dão uma estrela para o autor na Amazon, Skoob ou Goodreads, uma forma de tentar sabotar o trabalho do outro: não estamos falando de quando o autor não gosta do trabalho do outro depois de ter lido, mas de quando por qualquer tipo de birra, ele tenta derrubar o coleguinha e, muitas vezes, convence seus leitores a fazerem o mesmo. Parece alguma trama ficcional, mas é bem real! É possível e normal não gostar de um livro, sem partir para o ataque pessoal. Enquanto fora, os autores de gêneros e temáticas parecidos são mais unidos e sabem que se um ganha, os outros também vão ganhar leitores indiretamente, por aqui, é mais comum desprezar o sucesso que poucos autores nacionais conquistaram do que respeitar. Falta maturidade. Preconceito se quebra de dentro para fora.

"Se você ama um livro, nunca hesite em contar ao autor. Seu e-mail pode chegar no dia em que eles pensaram em desistir da escrita" – Fonda Lee

Quando um escritor brasileiro consegue sobreviver nesta selva, ele pode ser considerado mais vitorioso do que algum de fora, que conta com uma verba bem maior de publicação, distribuição e marketing, bem como a vantagem idiomática que permite conquistar leitores no mundo inteiro. O apoio dos leitores é fundamental para que o escritor nacional continue publicando seus livros e possa se dedicar à escrita. Enquanto em outros países, se dedicar integralmente à escrita é uma realidade para muitos, por aqui, é um privilégio de poucos. Não acredito que obrigar a publicação de mais autores brasileiros seja o caminho, como alguns pensam e defendem. O trabalho é de consciência e visibilidade. Deve começar dentro do autor, passando pelas editoras, para chegar até os leitores. É complicado dizer que os leitores precisam valorizar a literatura nacional (não falo só da ficção literária, mas de tantos outros gêneros e temáticas), quando nem mesmo o autor se valoriza e respeita os colegas. Quando um autor nacional consegue publicar um livro, muitos comparam com obras de fora, sem se dar conta de que independente de ele ter escrito antes, alguém conseguiu lançar primeiro. Há um forte receio de apostar no novo aqui, de dar um tiro no escuro. Quando você passa por um caminho e tem uma parede, você pode ficar batendo a cabeça nela ou pode estagnar... Se você quer muito seguir por esta rota, você precisa aprender a olhar para os lados e perceber que existem outras formas de passar, outras possibilidades. O mercado está se transformando diariamente. Muitas mudanças estão chegando. É melhor buscar informação e se preparar do que ficar só reclamando ou sendo conivente com coisas erradas. Se você não sabe aonde quer ir, como vai se mover? Entre o medo e a esperança, só não vale o auto-boicote.

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

6 comentários:

  1. É bem triste mesmo a realidade de quem tenta viver da escrita no Brasil. É um ciclo vicioso onde os leitores preferem obras estrangeiras, daí as editoras não divulgam os escritores daqui porque acham que não tem público e, com menos marketing menos leitores ficam sabendo da obra... E parece que a coisa não tem mais jeito.
    Concordo quando você fala que os autores precisam se unir, trabalhar em conjunto para benefício da categoria. Menos egoísmo pode ser um pontapé inicial pra mudar isso.

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    1. Oi, Carlos! Acredito que se cada um fazer a própria parte, a realidade já vai mudando aos poucos. Quando autores nacionais atacam outros autores nacionais, eles acabam disseminando o preconceito literário de que livros nacionais não merecem ser lidos. Se um autor tenta 'boicotar' outro, como acontece com bastante frequência, isso também atrapalha. O leitor entra nesse fogo cruzado e não tem ideia do que está acontecendo. Os leitores não têm ideia dos bastidores do mercado editorial, portanto muitos não entendem como a pirataria de ebooks, por exemplo, afeta escritores brasileiros. São muitas questões, mas todas elas devem ser comentadas. Ficar mantendo o silêncio só contribui para que as portas continuem fechadas para escritores brasileiros. A desunião entre autores é reflexo do ego, assim como jornalistas divulgam problemas de outras categorias, mas mantêm o silêncio com a demissão em massa deles. Infelizmente, não é algo exclusivo de escritores. O público existe, só precisa ser cativado.
      Abraços

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  2. Tão perfeito o seu texto! É uma jornada árdua tentar viver de escrita no Brasil e eu já presenciei casos de escritores que difamam o colega por ciúme, coisa terrível. Gosto muito do seu trabalho, parabéns!

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    1. Oi, Tamires! Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
      Fico muito feliz que tenha gostado ♥ É importante que essas coisas sejam ditas. Os leitores que não conhecem o que está acontecendo por trás, não têm ideia das briguinhas de egos que rolam por aí. Diante dos desafios, o importante é continuar tentando e de forma inteligente.
      Abraços e gratidão!

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  3. Oi Ben, a realidade é triste mesmo...claro que lemos muito mais autores internacionais do que nacionais....As próprias editoras fazem muito mais propagandas de autores de fora, não sei muito bem o motivo....Mas por exemplo, para e penso que aqui só se publica o q vende muito...independente de ser bom ou não...faço pelos livros de you tuber ou atores por exemplo, ou mesmo blogers de moda e famosas, eles estão na crista da onda, vai vender? vai!!!! É bom, bem escrito? Não sei....
    Claro que a editora vai publicar e tem que vender....mas se não se aposta em novos talentos, como que esse talento vai ser reconhecido?? Acho muito complicado, acho que a saída é o autor fazer isso aí mesmo que vc falou, perseverar e correr atrás pois vai chegar um momento que ele vai ser reconhecido para o grande público.
    bjs

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    1. Oi, Renata! É bastante importante que os leitores saibam como é essa realidade, para que com essa demanda deles, o movimento possa se movimentar para novos autores. O autor precisa saber lidar com algumas situações. Marketing nem sempre necessita de muito dinheiro, muitas vezes, só de mudar a maneira de pensar e planejar, faz muita diferença. Mas para isso, é preciso que o autor tenha consciência. Infelizmente, essa falta de investimento não é exclusividade do meio literário, acontece em qualquer meio artístico. Mesmo na área da literatura, a poesia, por exemplo, é bem difícil de ser comercializada no Brasil e no mundo inteiro.
      Perseverar é essencial para os escritores, independente de qual meio eles foram publicados. Conseguir uma grande e boa editora no Brasil não é fácil. Fico feliz em ver que alguns youtubers que estão conquistando espaço em editoras falam sobre livros, pois pelo menos seus conteúdos acabam incentivando a leitura! O ideal seria que os escritores conquistassem esses caminhos também. Como falei, se o autor quase nunca recebe royalties, está sempre pagando para publicar, dificilmente ele vai conseguir continuar crescendo. É preciso que ele feche contratos que sejam bons para ele. Essa falta de consciência faz muita diferença em como nosso mercado é diferente do internacional. Algumas coisas que são consideradas absurdas lá fora, aqui são normais.

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