sábado, 22 de abril de 2017

Wattpad: Enfeitiçado ganha destaque em perfil de ficção LGBT

Minha novela Enfeitiçado, disponível no Wattpad, foi divulgada em uma lista no perfil Ficção LGBT (@FiccaoLGBT), um projeto dentro da maior plataforma de livros online do mundo, cuja proposta é a de reunir histórias com personagens e romances LGBT, no intuito de disseminar qualidade, representatividade e visibilidade para as minorias.


Recebi a mensagem neste fim de semana de que Enfeitiçado foi adicionado à lista de leitura Verde (voltada para a divulgação de histórias de fantasias e seus sub-gêneros) e Prata (de histórias com desenvolvimento de relacionamento homoafetivo entre dois homens). Fiquei muito feliz, pois se tem algo que é importante no Wattpad, é a possibilidade de dar voz a diferentes autores e ideias e apesar de editoras tradicionais apostarem vez ou outra em livros com temática gay, ainda não é o suficiente.

"Nós da equipe do FicçãoLGBT achamos a sua história "Enfeitiçado", e adicionamos ela a nossa lista de leitura VERDE e PRATA. Achamos-a com uma qualidade excepcional, e por isso entrou para nossa lista pública" – trecho da mensagem enviada pelo FiccaoLGBT no Wattpad

Confira a sinopse da história Enfeitiçado:

Uma novela de fantasia urbana / young-adult, com temática de bruxaria. Augustus Cornacchini é um jovem gay, nascido em Florença em uma família de bruxos de raiz. Cada geração dos Cornacchinis deve estudar o livro das sombras deles e com Augustus não foi diferente. Entre os desafios de aprender mais sobre magia e estudar, ele, antes, precisa lidar com seus próprios desejos. Uma história sobre paixões e feitiços.



O principal desafio de histórias com personagens gays, acredito eu, não é só chegar até o público-alvo, mas ir além das fronteiras e ajudar a mostrar diferentes pontos de vista para quem desconhece a realidade. A literatura pode ser uma ótima ferramenta para diminuir preconceito, quando o leitor está disposto a sair da zona de conforto e abrir sua mente. Ao se colocar na pele de outros personagens, acabamos nos reconhecendo no outro mesmo nas diferenças e percebendo que muitos têm os mesmos sonhos, desejos e no final o que todos querem é a felicidade e serem aceitos do jeito que são.

Todo escritor é um sonhador (ou foi um dia). Alguns perdem o brilho nos olhos. Outros continuam lutando pelos ideais. Liberdade é um deles. Qual é a importância de histórias com representatividade? Ainda me lembro de quando comecei a escrever meus primeiros contos antes de 2011, eram narrativas com personagens gays e temáticas de fantasia e terror, minhas favoritas. Quando terminei de escrever as histórias e fui enviar para uma editora que publicava obras com temática gay, recebi uma mensagem dizendo que as únicas propostas de livros que eles recebiam eram com um teor educativo e que eles não estavam interessados na publicação de livros de ficção com personagens gays. Nenhum escritor esquece o seu primeiro não. Bom, esse foi o meu.


Eu nunca escrevi histórias com personagens gays como se fosse simplesmente uma forma de levantar bandeira. A proposta foi a de querer ver mais personagens com os quais eu pudesse me identificar, me ver dentro das narrativas. Grande parte dos livros com personagens LGBT se focam em romances contemporâneos ou literatura erótica, mas ainda são poucos publicados em editoras tradicionais que se aventuram em diferentes temáticas, como Graham: O Continente Lemúria, do escritor Vinicius Fernandes (A. Wood), que fez sucesso na editora Selo Jovem. Graham é um romance sobre caçadores de vampiros que explora os desafios de um jovem gay neste universo de criaturas fantásticas e que acabou conquistando os leitores e, sem dúvidas, dando sua contribuição para diminuir a homofobia, mostrando personagens que não só lidam com os problemas de aceitação em suas famílias e sociedade, mas que também tem suas próprias aventuras. Ou quem sabe o romance histórico, 

Enfeitiçado, por exemplo, é uma história que foi escrita em 2011 e fez parte desta coletânea de contos que nunca chegou a ser publicada e acabou sendo distribuída em alguns livros com outros autores e outras acabaram engavetadas. Uma narrativa de fantasia com temática de bruxaria e personagens gays era (e ainda é) difícil de ser aceito comercialmente, mas quando pensamos em plataformas de publicação de histórias gratuitas, como o Wattpad, vemos o potencial que essas ferramentas tem de ajudar a dar visibilidade, afinal, apesar de publicar em editoras e receber direitos autorais ser algo importante para escritores profissionais, tão importante quanto é tornar estas histórias vivas e fazê-las chegar até os leitores.

Mesmo no meu livro de fantasia O Círculo, com mais de 50 mil leituras no Wattpad, além de explorar a temática de fantasia e bruxos, sutilmente tento trabalhar esta questão da visibilidade, apresentando personagens diversos. O trabalho do escritor é o de contar histórias e ele não pode subestimar o leitor, há coisas que ele pode deixar nas entrelinhas, levantar questionamentos e deixar cada um encontrar o seu caminho. A partir do segundo volume, o romance entre dois personagens do mesmo sexo, por exemplo, ficou mais evidente e não senti nenhum estranhamento ou preconceito por parte do público-leitor.

Embora Enfeitiçado tenha sido publicado somente seis anos após ter sido escrito, acompanhado do primeiro não, alguns meses depois eu participei de um concurso literário de uma extinta editora que publicava livros com temática gay, Editora Escândalo. Consegui vencer duas vezes e ter três contos publicados em duas coletâneas publicadas por eles em 2013 e 2014. A editora pode não existir mais, no entanto foi o pontapé inicial que eu precisava para seguir a minha carreira de escritor profissional. Editoras de nicho lutam para sobreviver, principalmente diante das faltas de incentivo e do baixo índice de leitura no Brasil. No mesmo período em que a Escândalo fechou as portas, a editora Brejeira Malagueta, voltada para a publicação de literatura lésbica também encerrou suas atividades, mostrando que apesar das boas intenções e ideais dessas editoras, as dificuldades de financiamento são uma realidade.

Perseverança. Palavra que todo escritor deve levar para a vida. Em 2015, recebi um prêmio na categoria literatura em apoio a diversidade sexual tanto pelas minhas publicações literárias, como pelo trabalho realizado no blog: mais de 40 resenhas de livros com temática gay e dez entrevistas com escritores brasileiros que apoiam a importância da visibilidade LGBT na literatura, como Fabrício Viana (autor de O Armário, Theus e organizador da coletânea Orgias Literárias da Tribo), Roberto Muniz Dias (autor de livros Adeus a Aleto, Urânios, Um Buquê Improvisado, A Teia de Germano, Errrorragia, entre outros), Paulo Sérgio Moraes (autor dos romances Condicional e Olho Grego), Karina Dias (autora Aquele Dia Junto Ao Mar, Diário de uma Garota Atrevida e As Rosas e a Revolução), Occello Oliver (autor de Fora do Armário e editor da Cultura em Letras Edições) e Evelyn Postali (autora dos livros Promessa de Liberdade e Trilhas de Silêncio).

Por que escrevi esse texto todo? Para mostrar que as novas gerações de escritores também estão fazendo sua parte ao ajudar a combater a homofobia e o preconceito contra LGBTs. Assim como existe muito preconceito com literatura gay, também existe uma forte resistência ao Wattpad. Nem todo mundo que está lá tem a pretensão de se tornar escritor profissional, alguns escrevem pelo simples prazer de contar suas histórias e nada impede que muitos comecem como escritores amadores e algum dia se profissionalizem. A internet já abriu as portas para muitos autores e vai continuar abrindo para outros. O que é deplorável é ver muitos escritores veteranos julgando iniciantes, quando eles mesmo estiveram do outro lado. Sim, os meios de publicação estão mais modernos e mais rápidos, mas a generalização nunca foi resposta para nada.

Todo escritor que aposta na diversidade contribui de alguma maneira com a sociedade. Velhas convenções continuam sendo repetidas de geração a geração e vão continuar até que as pessoas comecem a quebrar essas correntes de dentro para fora. O preconceito é naturalizado dentro de escolas, universidade e círculos sociais. Eu gostaria de ser ingênuo e acreditar que a literatura tem o poder de nos tornar mais empáticos, mas existe um limite de até que ponto os livros podem nos transformar em pessoas melhores. O que vemos na prática é que a resistência ao novo ainda é forte entre os próprios escritores e leitores. Enquanto alguns continuam apostando nas velhas convenções de o que é literatura, o que é aceitável na ficção e presos na nostalgia se esquecem que a arte se transforma com a contemporaneidade, muitos escritores estão conseguindo abrir a mente dos leitores e mostrá-los a importância do respeito tão bem quanto aqueles que continuam pregando a literatura clássica e canônica, como única salvação para a humanidade.

O desafio no Brasil vai além da formação de leitores. Sim, o país tem um baixo índice de leitura. No entanto, vale observar que mesmo entre os letrados, o preconceito corre solto e os egos são venenosos. Quando observamos que pessoas continuam sendo assassinadas e violentadas por serem consideradas minorias, vemos que a literatura ainda tem muito a evoluir e o papel dos contadores de histórias continua fundamental para o desenvolvimento social. Leitores não são só números e não são só consumidores. Livros não são só produtos e carregam ideias importantes mesmo quando estão implícitas. A literatura não tem o papel de educar o ser humano, no entanto ignorar suas possibilidades e prosseguir apostando em histórias que excluem e marginalizam pessoas diferentes é dirigir na contramão e ingenuamente não perceber que há um risco de acidente, especialmente em tempos em que o ódio, a intolerância e o radicalismo permanecem fortes e são responsáveis pela destruição de muitos.

Entre escritores amadores e profissionais, o importante é escrever sobre o que gosta e tem interesse de ler, mesmo que não haja pretensão comercial. A literatura vai além da fronteira financeira e do gosto pessoal; toda história só vive quando o autor disponibiliza para o leitor. Que os escritores percebam as possibilidades que suas escritas têm de ajudar outras pessoas e entretê-las, mesmo quando não ganham um centavo por isso, afinal, muitos textos morrem engavetados sem qualquer chance de serem publicados por editoras tradicionais e sem viabilidade para autopublicação, e se é para ter visibilidade e influência que seja para algo útil, não somente para satisfazer os desejos do ego.


O perfil Ficção LGBT apresenta histórias de vários gêneros e temáticas que tenham relação com o universo LGBT, como contos, novelas e romances, temáticas de mistério, sobrenatural, fantasia, histórico, ficção científica, romance, eróticos e ficção adolescente e foco em personagens homens gays, mulheres lésbicas e personagens transsexuais e/ou intersexual, além de apresentar desafios de escrita e divulgar resenhas de histórias publicadas no Wattpad.

Ficou curioso para conferir a lista do perfil Ficção LGBT? Confira: https://www.wattpad.com/user/FiccaoLGBT

*Ben Oliveira é escritor, blogueiro e jornalista por formação. É autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e do livro de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1), disponível no Wattpad.

2 comentários:

  1. Ótimo texto! A representatividade na literatura realmente é muito importante. Torço para que cada dia mais a literatura contribua para abrir a mente das pessoas ao inserir a diversidade em suas temáticas! :D

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    Respostas
    1. Oi, Vinícius! Bom te ver por aqui ♥
      Acredito que só de estarmos fazendo nossas partes, as coisas já vão melhorando aos poucos, né? É muito bacana ver pessoas diversos e diferentes temáticas por aí.
      Gratidão pelo comentário.
      Abraços

      Excluir

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