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Destaques

Revolutionary Love: Série coreana de drama explora o abismo que divide as classes sociais

Embora muitos dramas coreanos pequem na representatividade de diversidade racial e deem pouquíssimo espaço para estrangeiros e imigrantes, a série Revolutionary Love (2017) da tvN e no Brasil disponível temporariamente pela Netflix , acaba indo além dos elementos de comédia e romance, mostrando o drama das diferenças de classes sociais , os preconceitos e a possibilidade de imersão nesse mundo desconhecido pelo filho do dono de um dos maiores conglomerados de empresas da Coreia do Sul . A ingenuidade e a ignorância da realidade das classes trabalhadoras tornam o protagonista um tanto embaraçoso, lembrando de forma vaga a jornada de Buda quando conheceu a realidade fora do palácio e foi confrontado com a fome, a doença, a pobreza e a morte. Longe de ser uma série com alguma alegoria espiritual, mas do ponto de vista do comportamento é interessante acompanhar como Byun Hyuk (Choi Si-won) se torna mais empático e humanizado quando seu caminho cruza com o de Baek Joon (Kang So-ra) . E

Jair Bolsonaro: Como brasileiros elegeram alguém com discursos de ódio, fake news e polarização artificial

Há uma pergunta que circula bastante em alguns grupos: como Jair Bolsonaro foi eleito Presidente do Brasil? Para outros, a resposta já era óbvia desde o início: aqueles que conseguiram analisar sua estratégia política de insuflar polarização, despertar gatilhos emocionais em seus apoiadores e usar táticas de manipulação. Porém, mais preocupante ainda, é a existência de uma parcela da população que votou em Bolsonaro e não faz a mínima ideia de responsabilidade coletiva e de como sua decisão afetou a vida de milhões de brasileiros.

No programa Altas Horas do dia 26 de junho de 2021, a atriz, produtora e cantora brasileira Leandra Leal não escondeu sua insatisfação com o governo Bolsonaro. Além da transmissão pela Rede Globo e Globoplay, trechos de sua participação viralizaram e tiveram milhões de visualizações  somadas nas redes sociais, como Twitter, Instagram e Facebook. 

Confira a transcrição da fala:

“Olha o que a gente está passando agora. Acho que tem uma autocrítica que toda sociedade tem que se fazer agora que é assim: como é que a gente deixou o Bolsonaro ser eleito Presidente? Como? Ele já falava sobre preconceito. Ele já destilava o seu ódio. Ele já falava sobre homofobia. Ele já espalhava fake news. 

Não foi uma escolha difícil. Quem se permitiu achar que era uma escolha difícil, relativizou o preconceito. Relativizou a homofobia. Relativizou o racismo. Porque tudo isso estava na fala dele. O desprezo que ele tem pelas pessoas agora, a falta de empatia, como ele imita uma pessoa faltando ar. Ele já tinha isso no seu discurso. Ele já tinha isso na sua prática. 

A gente não pode agora nas eleições do ano que vem, ficar desatento a isso. Achar que não, que isso é piada. Não é piada. Preconceito não é piada. É sério. Olha o que a gente está passando. 

A gente está passando por uma pandemia, mas tem inúmeras outras injustiças que a gente pode continuar passando no nosso país. 

E eu espero muito que isso seja uma lição desse momento. Todos nós precisamos votar com consciência, ouvindo, escutando, o que a pessoa que está candidata aquele cargo está dizendo”.

A fala de Leandra Leal representou as vozes de milhões de brasileiros que têm alertado sobre os riscos para a diversidade humana, diversidade ambiental e como ficou evidente nessa pandemia de Covid-19, de sobrevivência humana. 

O discurso também traz uma crítica ao editorial do Estadão intitulado Uma Escolha Muito Difícil. Publicado em outubro de 2018, o texto falava sobre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad no segundo turno. Talvez para alguns não era tão óbvio como ficou agora, mas se tratou de uma escolha de um candidato com discursos de ódio e tendência autoritarista contra um candidato que é professor e defensor de democracia.

Qual é a importância de artistas e até pessoas que não são do meio cultural compartilharem suas opiniões sobre o que tem acontecido no Brasil e sobre os perigos do bolsonarismo? Não faltaram informações na imprensa e registros históricos sobre os riscos de Jair Bolsonaro ser eleito. Então, o lado racional não é suficiente para quebrar o encanto bolsonarista

Do mesmo modo que eles usam as emoções para manipular seus aliados, promovendo desinformação e incentivo ataques coordenados e fake news, o que ficou conhecido como Gabinete do Ódio, não digo que os opositores precisem jogar sujo igual Bolsonaro, mas que é necessário reconhecer o papel das emoções.

No livro Pós-Verdade, o jornalista inglês Matthew D’Ancona alertava que essas artimanhas de políticos da Extrema-Direita, como Donald Trump e Bolsonaro são difíceis de combater só com trabalho jornalístico. Tanto é que uma das estratégias adotadas por políticos assim são os constantes ataques à imprensa, como uma forma de fazer parecer que as empresas jornalísticas não são confiáveis. Desde que Jair Bolsonaro foi eleito, ele próprio atacou jornalistas inúmeras vezes, e seus apoiadores também usam a internet para destilar ódio.

Embora a rejeição de Bolsonaro esteja subindo em ritmos alucinantes, é importante lembrar que milhões de brasileiros nunca apoiaram esse governo e sempre tentaram abrir os olhos da população. A filósofa e autora brasileira Marcia Tibúri foi uma dessas pessoas e diante do cenário de ódio e tendência nazifascista alertada por inúmeros pesquisadores, ela acabou se exilando. 

Em seu livro Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo, a escritora alerta sobre os perigos do autoritarismo em tempos digitais e também revela que uma das faces do fascismo é a ausência da catarse, portanto, dá para perceber a importância da cultura e da arte nesses momentos e porque essas áreas são tão atacadas pelo governo Bolsonaro.

Até o momento em que escrevo o texto, a tragédia sanitária brasileira já causou mais de 513 mil mortes. Existem muitos brasileiros que ainda não acordaram para a gravidade das ações e omissões cometidas pela gestão de Bolsonaro na pandemia: não entendem como o atraso da aquisição de vacinas foi responsável pela vida de milhares de brasileiros, tampouco sobre como o incentivo às aglomerações sem máscaras e ataques às medidas de restrições e lockdown contribuíram para o vírus se espalhar.

Se parte da população nunca comprou os discursos de Bolsonaro na pandemia, uma outra parte acorda lentamente. Pessoas que o apoiaram direta ou indiretamente, seja votando nele e se arrependendo ou votando em branco nas eleições. A pandemia não escolhe partidos políticos, ideologia, raça, status social, mas sabemos que alguns grupos são mais atingidos do que outros e que a situação brasileira estão tão caótica que a preocupação com o vírus não é só nacional, como outros países estão atentos ao que está acontecendo por aqui. Ou seja, o Brasil que era exemplo internacional de imunização em massa se tornou uma ameaça sanitária internacional graças ao Bolsonaro.

A maré mudou para o governo Bolsonaro. Com os avanços nas investigações da CPI da Pandemia, revelando que não foram movidos só por teorias da conspiração e crenças nos posicionamentos anticientíficos, mas por interesses comerciais de tratamentos sem comprovação científica e atrasos na vacinação, milhares de brasileiros têm compartilhado sua insatisfação na internet e pedindo pelo impeachment do Bolsonaro.

Como divulgado aqui no blog, as campanhas Vidas Brasileiras e Pergunte Ao Lira estão entre as ações. No dia 29 de maio aconteceu a primeira manifestação do ciclo atual pedindo Fora Bolsonaro e novas manifestações já estão marcadas para acontecer pelo Brasil após a entrega do superpedido de impeachment. 

Além disso, movimentos sociais lançaram o site Superimpeachment com a proposta de pressionar Arthur Lira pela abertura de um dos mais de 100 pedidos de impeachment contra Bolsonaro. Até o momento de publicação do texto, mais de 43 e-mails foram enviados para Arthur Lira através do Superimpeachment.

“Já são 121 pedidos de impeachment, vindo dos mais diversos lugares. A situação é tão grave que parlamentares normalmente adversários se juntaram para construir um único superpedido. Não se trata de ideologia, mas sim de conseguirmos manter no país um mínimo de dignidade humana” – trecho do e-mail do superimpeachment

Contrariando a ideia de que o impeachment não tem apoio popular, pelas inúmeras iniciativas virtuais e manifestações na rua, o movimento Vem Pra Rua lançou o Mapa Adeus Bolsonaro, uma ferramenta que cruza dados dos parlamentares de acordo com sua opinião sobre o impeachment de Bolsonaro. Os parlamentares são classificados como indefinidos, contrários ou favoráveis. 

O que nos levou até Bolsonaro e ainda nos mantêm aqui foram vários fatores que nem sempre são observados pela população em geral. Possível interferência externa dos Estados Unidos, parcialidade do Sergio Moro, disparos em massa pelo WhatsApp, indústria das fake news para minar os opositores (estratégia que também foi usada por Donald Trump e é revelada por Roger Stone), pagamentos de jornalistas para fazer propaganda do Governo, falta de transparência orçamentária, tentativas de desmoralizar artistas, jornalistas, pesquisadores e professores, misoginia (o governo Bolsonaro foi processado a pagar milhões por falas contra mulheres), tentativas de desmonte da cultura, ataques às minorias, entre centenas de motivos. 

Sabemos o que nos trouxe aqui, agora, o que precisamos, é tirar o Brasil da lama tóxica que o Bolsonaro enfiou. Isso só será possível quando a população entender que democracia, cidadania e dignidade humana não são questões partidárias e fazem parte da Constituição.

*Ben Oliveira é escritor, formado em jornalismo. Autor do livro de terror Escrita Maldita, publicado na Amazon e dos livros de fantasia jovem Os Bruxos de São Cipriano: O Círculo (Vol.1) e O Livro (Vol. 2), disponíveis no Wattpad e na loja Kindle.

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